A cena é conhecida e causa indignação. Quando há um suicida em lugares públicos quase sempre há pessoas que se comportam como plateia de um 'espetáculo', sem levar em conta a vida a ser preservada.

Matéria publicada na FOLHA nesta sexta-feira (15) aborda essa absurda falta de empatia e solidariedade, resgatando uma tentativa de suicídio recente, numa passarela da PR-445, quando o Corpo de Bombeiros tentava salvar uma pessoa que ameaçava se jogar e curiosos se aglomeraram no local estimulando o sujeito a saltar para a morte. A mesma cena repetiu-se há poucos meses, no centro de Londrina, quando a polícia chegou a prender um homem que estimulava o suicídio de outro que ameaçava pular do Edifício Júlio Fuganti.

Num mundo cada vez mais mergulhado na violência, no qual não se passa mais um dia sem notícias chocantes, a vulnerabilidade das pessoas é usada para manifestações desumanas de quem torce pelo desfecho trágico e parece se divertir com ele.

Com o advento das redes sociais, a falta de empatia parece ter crescido. Dispostos a registrar fatalidades, não faltam indivíduos para fotografar e filmar todo tipo de violência contra a vida. Mas isso não é tudo, enquanto alguns procuram enfaticamente salvar pessoas, muitos parecem se regojizar com as tragédias individuais ou coletivas. Um gosto mórbido de presenciar acidentes e toda sorte de eventos sinistros parece estimular uma espécie de "ritual da destruição" em pessoas que se comportam de forma indigna na indução da morte dos fragilizados.

A "plateia" que desafia os suicidas é incapaz sequer de perceber que a vida de uma pessoa que se coloca em risco está relacionada a outras vidas, de familiares e amigos que, certamente, vão passar por luto e sofrimento caso o suicídio seja consumado. A morte de qualquer pessoa, sobretudo em condições violentas, deve ser vista como uma perda sofrida dentro da rede das relações humanas que remetem à frase célebre do escritor norte-americano Ernest Hemingway que, ao narrar a guerra civil espanhola, lamentou a morte de cada pessoa fazendo uma conexão humanista: "Não pergunte por quem os sinos dobram, eles dobram por ti."

A frase é o reconhecimento fraterno de tudo o que a vida deveria representar numa sociedade que parece cada vez mais disposta a assistir a eventos trágicos como quem assiste a uma nova série.

Não custa lembrar, como bem registra a matéria da FOLHA, que induzir ou instigar o suicídio é crime tipificado no artigo 122 do Código Penal. O lamentável é que algumas pessoas tenham que ser lembradas desse crime, quando não deveriam sequer cogitar um estímulo mórbido ao se depararem com pessoas em risco.

O sujeito no alto de um prédio ou de uma ponte ameaçando se jogar, seguramente é uma pessoa que precisa de muito ajuda, empatia e solidariedade em vez de estímulos satíricos, piadas de mau gosto e torcidas destrutivas que colocam a "plateia" também como portadora de emoções doentias.

Entre os suicidas, há pessoas com desequilíbrios mentais, em crise afetiva e econômica,vítimas de decepções e perdas graves ou sujeitas a doenças consideradas incuráveis. Empurrar alguém tão vulnerável para a morte é manifestação de um individualismo cruel, um sinal de frieza de quem trata a morte como 'entretenimento'. O mundo contemporâneo precisa urgentemente de uma revisão de valores em busca de relações empáticas e mais sensíveis. Um caminho é questionar e paralisar a 'sociedade do espetáculo', chamando à razão e ao sentimento humanitário quantas vezes for necessário. Precisamos lembrar a nós mesmos de nossa humanidade num exercício cotidiano.

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