Incertezas fazem parte da vida. Na verdade não existem certezas absolutas. Tudo pode mudar repentinamente ou ser coisa diversa da que parecia ser em determinado momento. Vivemos nos esgueirando entre surpresas boas e más, e isso constitui uma das dificuldades para encontrarmos a verdade. Mas nesse mundo de aparências, de impermanências, onde o relativo se converte na angustiada e contínua busca de certezas e verdades, alternaram-se através do tempo eras de maior estabilidade e certezas, e eras de maior conflito e perplexidades. A partir de 11 de setembro desse ano, que marca no calendário cristão o começo do século 21, ingressamos numa nova e perigosa era de incertezas.
Naturalmente, nada acontece de súbito. Tudo é um processo e crises de graus variados em diversos países, já alertavam para determinados efeitos sobre a economia mundial. Entretanto, a explosão das torres do World Trade Center conturbou perspectivas embutidas no admirável mundo novo que ia emergindo das conquista da ciência, da tecnologia e do progresso de modo geral, deflagrando a recessão que começa a atingir os países mais prósperos do planeta.
A crise econômica em que vamos mergulhando foi resumida de modo sombrio pelo jornalista Nahum Sirotski, um dos meus correspondentes através da internet, e creio que é interessante conhecer sua avaliação: ''As chamadas 'locomotivas do mundo', a começar pelos Estados Unidos, estão quase paradas. A recessão se generaliza. O desemprego é crescente. A freada é de antes do dia 11 de setembro, mas desde então piorou drasticamente. Há uma crise de confiança. Os indivíduos temem as ruas e o futuro. Os capitais não têm convicção de investir.''
Ao lado das incertezas geradas no contexto econômico, surgem outras de cunho apocalíptico que mais parecem emergir das profecias de Nostradamus. O próprio presidente Bush alertou para o fato de que Osama Bin Laden e seus seguidores podem obter armamentos nucleares, o que realmente não é difícil. Isto já é tema para outro artigo, mas o fato é que o perigo latente de uma guerra atômica, que parecia ter acabado com o fim da Guerra Fria, não é uma conjectura descartável nessa era de cenários imprecisos.
Note-se que até a questão que envolve o conflito entre israelenses e árabes, e que tem um peso político mundial a ser considerado, vai se alterando. Israel perde espaço junto aos Estados Unidos que precisam do apoio do mundo árabe, ou pelo menos de sua simpatia para continuar a guerra no Afeganistão. Inclusive, prevê-se por esses dias, na Assembléia das Nações Unidas, o anúncio de uma nova política para o Oriente Médio da parte dos norte-americanos, e líderes israelenses, assumindo uma atitude estratégica, já começam a aceitar e a estudar a criação de um Estado Palestino.
A iniciativa pela paz de Ariel Sharon e Shimon Peres, porém, não inclui a suspensão dos conflitos. Aliás, todos os esforços governamentais de pacificação, incluindo os já feitos pelos Estados Unidos, redundaram no acirramento dos conflitos, e o ódio e o desespero acumulados nos dois lados que se confrontam em lutas sangrentas, não poderão desaparecer instantaneamente por decreto.
Cito aqui um caso narrado por Sirotski, que ilustra o horror e o sofrimento que habitam o Oriente Médio: ''Não conseguiremos esquecer o sorriso no rosto de Shoshana, congelado por um tiro mortal na cabeça. Nem a expressão de medo congelada no rosto do assassino. Nas guerras que vivemos os mortos perdem a identidade e viram números. Mas a menina de dezesseis anos que voltava de ônibus da aula, eu a vi brincando um dia antes, e o palestino tinha a expressão de quem tinha morrido antes de viver.''
Ingressamos numa era de incertezas. A quem interessa isto? Que tipo de mundo desejam organizar os que lideraram os ataques terroristas contra os Estados Unidos? Não é possível responder com precisão nesse momento a essas questões. De concreto só o sorriso congelado no rosto de Shoshana, alerta numa era de incertezas.


- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora, socióloga e professora universitária
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