O sórdido e o sublime - José Nêumanne
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de setembro de 1997
José Nêumanne 
Certas notícias de jornal, de tão surpreendentes, já deixaram de surpreender. É o caso do relatório entregue à agência russa de notícias Itar-Tass dando conta das pesquisas do professor universitário Yuri Khechinov, da Universidade de Construção, em Moscou. Tais pesquisas comprovaram o que antes apenas se suspeitava: Josef Stalin, o paizinho, o herói que submeteu o nazismo e invadiu Berlim, pondo fim ao pesadelo da Segunda Guerra Mundial, não passava de um alcaguete. Sete anos antes da revolução de 1917, o homem que construiu o império soviético, que chegou a ameaçar a supremacia norte-americana no mundo, foi agente da polícia secreta do czar Nicolau II. Se não for verdade, isso foi muito bem achado.
Pois, na verdade, só teve o benefício da surpresa o próprio Partido Comunista russo, sucessor do extinto PCUS, que, antes de Gorbachov, reuniu tanto poder e tanta glória, mas agora preferiu contestar com o silêncio as dúvidas de que teria seu símbolo da virtude vivido por quatro anos a pior das vilanias. Qualquer pessoa dotada de um mínimo de bom senso, acrescido de alguma informação histórica e da necessária isenção, será capaz de encontrar alguma conexão lógica entre o passado de dedo-duro do inflexível georgiano e o regime policialesco, que ele construiu com talento e pertinácia, desde que assumira o comando da máquina burocrática de um punhado de políticos que se consideravam a vanguarda infalível e incontestável dos interesses do proletariado mundial.
O regime implantado por Lenin na Rússia e, depois, nos vizinhos indefesos, reunidos na União Soviética, não conseguiu cumprir o objetivo de dar terras a todos os camponeses, muito embora seu sucessor, o próprio Stalin, tenha se esforçado para tal dizimando milhões de agricultores. Também malogrou na tentativa de pôr fim à fome e ao atraso com a socialização dos meios de produção. Mas conseguiu construir um sistema repressivo, capaz de matar Hitler de inveja. O aprendizado de Stalin na Okhrana deve ter sido frutífero, a julgar pelo êxito de seus filhotes: a própria Gestapo teria muito a aprender com a Tcheka, a GPU e a KGB.
No poder, Stalin levou seu aprendizado de cinismo a um estágio que o pintor de paredes austríaco jamais poderia alcançar, tornando a literatura do florentino Maquiavel uma modalidade da ficção da carochinha. Que tirano jamais conseguiu na História levar um companheiro da sofisticação intelectual de um Bukhárin a se confessar culpado, por julgar que sem seu algoz, o ditador, não sobreviveria a idéia-mãe do socialismo, mas ele mesmo deveria perecer? Que assassino de romance noir se aproveitou do próprio crime, bem urdido (o assassínio de Kirov, cuja popularidade crescente lhe tirava o sono), para incriminar, um a um, inocentes, que poderiam, algum dia, atravessar seu caminho mais à frente, como o próprio Bukhárin e seu adversário, Trotsky?
A descoberta de que o homem de aço serviu à Okhrana pode ser a concretização trágica daquela anedota fictícia de humor negro do tempo da ditadura militar no Brasil, segundo a qual um preso político teria perguntado a seu carcereiro, um agente do DOPS, se ele não temeria pela própria sorte, no caso de os comunistas tomarem o poder. Não. Se vocês tomarem o poder, vão precisar de meus préstimos profissionais, teria sido a resposta cínica, mas exata. O interlocutor do policial nesse diálogo hipotético, fosse ele quem fosse, deveria ter sofrido um choque, ao tomar conhecimento do relatório de Kruchov, denunciando os crimes do pai de todas as Rússias. Todos os comunistas bem intencionados do mundo, que aprenderam a venerar Stalingrado como a máxima vitória da virtude sobre o vício neste século, começaram a sofrer desde então.
Se tivesse sobrevivido às torturas da estúpida ditadura militar de direita, esse militante fictício precisaria ter um coração muito forte para lidar com o fato de ter dedicado a vida à veneração de uma causa simbolizada por um delator. Para consolá-lo, sem querer exagerar na ironia, resta apenas a evidência de que o georgiano não era um dedo-duro qualquer. Um dedo-duro qualquer não transformaria gênios das artes plásticas contemporâneas, os muralistas mexicanos, em pistoleiros de aluguel, fazendo-os atentar contra a vida de uma velha, indefesa e quixotesca figura como Trotsky, enquanto pactuava com o diabo nazi.
Por tudo quanto foi descoberto e descrito, é possível concluir que os limites da sordidez ainda não foram devassados, como os do sublime e, em algum ponto incerto da alma humana, eles se encontram.
- JOSÉ NÊUMANNE, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde


