O sono e o sonho
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de setembro de 2002
Walmor Macarini 
A Sábia Providência não reservou ao homem o sono apenas para ele refazer suas energias físicas, mas também para possibilitar à alma momentos de libertação do seu temporário complemento carnal. No estado de vigília a densidade da matéria corpórea a aprisiona, dificultando a sua manifestação, embora a todos seja possível ouvi-la, pela voz da intuição.
Enquanto o corpo dorme a alma voa, a distâncias que não se pode medir por tempo e espaço. É o momento em que ela retorna ao seu ''lugar'' de origem, para rever os seus, da forma que fazemos quando vamos visitar alguém por laços de afeição ou compromisso. Porque o corpo físico é apenas uma vestimenta, necessária para que sua essência sutil suporte a pressão da densidade nesta dimensão terrena, assim como o cosmonauta precisa do traje espacial para não asfixiar-se.
Os sinais do que a alma faz, nessas incursões, são enviadas ao corpo que dorme através dos sonhos, e se eles são confusos, é porque o aparelho grosseiro é péssimo receptor, assim como um rádio defeituoso não capta a onda da emissora, por melhor que ela transmita. Aparelhos melhores captam sinais melhores, por isso que certas pessoas conseguem vivenciar o realismo das emoções vividas pela alma liberta. Se o corpo recebe imagens desconexas, a alma, porém, armazena com precisão tudo aquilo que haure e experimenta nessas viagens diárias.
O sono é uma espécie de morte, por isso morre-se todos os dias, e para a alma de maior leveza não será novidade o que verá quando a verdadeira morte do corpo ocorrer. Logo, não há que temer a morte, porque ela é apenas um adormecimento e um renascimento. E naturalmente uma ''mudança de vida''. Nunca ninguém descreveu a exata sensação do momento de passar do estado de vigília para o sono, porque não se sabe quando e como acontece. Morrer é como conciliar o sono.
Mas, de que serve o sonho se poucos se lembram de detalhes e conseguem decifrá-lo? Para o corpo, quase nada, mas a alma sabe e guarda os experimentos. Em dado momento, a pessoa capta uma idéia, faz uma descoberta, resolve um enigma, tem uma resposta, um pressentimento, uma forte intuição. É a voz da alma passando-lhe informações. Porque, nessas viagens fora do corpo, contata com entes conhecidos, com mestres, e se instrui; ou com legiões inferiores, e se alerta ou fica sujeita a tais influências. Mais se comunica com quem tem maior afinidade ou com lugares e situações dos quais guarde registros informativos.
O sonho-visão da escada de Jacó era uma dessas vivências, que ele - ser humano - conseguiu captar com nitidez, porque seu estado de plenitude naquele momento o permitiu. Cada um de nós vivencia fatos semelhantes, com muita frequência, mas a memória física não consegue guardar a lembrança. Doentes terminais que ingressam momentaneamente no outro lado, têm feito revelações surpreendentes sobre as sensações vividas nesses instantes de desprendimento.
Há sonhos que revelam a certas pessoas o que vai acontecer, e há outros que são captações misturadas às sensações da personalidade, porque os sentidos físicos têm também influência sobre o sonho. A alma não está ''dentro'' do corpo, mas o envolve e se estende, por isso é prevalecente sobre a matéria, não obstante o poder do ego possa ofuscá-la, nas personalidades mais grosseiras. De qualquer modo, o espírito se vale do experimento da fisicalidade, para sua purificação e evolução. É apenas por isso que vem para cá, a não ser nos casos de tarefas missionárias.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


