Fernando José Dias da Silva
O senhor Alves escreveu carta ao presidente da República que foi publicada no jornal. Na sua epístola, o senhor Alves conta para o presidente que nós não temos um povo porque a nossa gente parou de sonhar e um povo se alimenta de utopias: ‘‘Sonhos fundamentais são aqueles que moram na alma das pessoas e que foram enterrados no esquecimento por sua sucessiva frustração’’.
Nada de utopias grandiosas, o senhor Alves acha que o pensamento vivo está ligado à ação possível. ‘‘O que está além da nossa possibilidade de ação não é pensado. E o campo das ações possíveis das pessoas comuns é o espaço do seu cotidiano, aquilo que está ao alcance de suas mãos, na casa, na rua, no bairro, na cidade.’’
Esse senhor Alves é mesmo da fuzarca, arremata escrevendo que sonhos não se fazem com abstrações que são coisas de sociólogos, economistas, administradores. E ainda pede ao presidente, imagine, chamar alguns poetas como assessores porque ‘‘quando eles falam, todo mundo se comove, porque os poetas têm o poder de dar vida aos sonhos’’. Ele acha que Fernando Henrique, como ‘‘mestre e como intérprete de sonhos’’ de uma Nação, poderá fazer o que é essencial: criar um povo.
Se o senhor Rubem Alves não fosse educador, psicanalista e professor emérito da Unicamp, poderia ser chamado de ingênuo. Como é que um cidadão vem a essa altura, no ano 2000, fazer propostas desse tipo? Pensar que tão altas responsabilidades dos nossos mandatários possam ser resolvidas com poesia, com frivolidades.
O senhor Alves não tem ouvido os discursos dos políticos, não está sendo informado das riquezas fabulosas amealhadas pelas instituições financeiras, do lucro estupendo auferido pelas empresas privatizadas, que mais a frente vão reverter em crescimento e melhor qualidade de vida para aqueles que precisam, é claro.
Quanto aos poetas que tornam a vida menos áspera, o senhor Alves está sendo no mínimo ingrato. Afinal, o Ministério da Cultura esta aí incentivando as manifestações mais altas da nossa arte para nutrir o espírito inquieto e ávido de saber do povo brasileiro.
O ministério proporciona a cineastas de reconhecida competência, como Guilherme Fontes e Norma Benguell, os meios necessários para que eles possam mostrar de uma forma moderna a nossa história. Isso no alto nível, porque da informação artística mais popular podem se encarregar os empreendedores da iniciativa privada, abrindo espaço na televisão para o Ratinho, a Hebe Camargo, a Xuxa, o Ed Banana, o Sérgio Mallandro e tantos outros.
Talvez o senhor Alves, nesse aspecto, estivesse preocupado com uma certa falta de animação. Aí sim ele está certo. Apesar da Ilha de Caras, a população parece meio desmotivada, incapaz de reagir aos estímulos que são emitidos pelos centros decisórios, os nossos verdadeiros agitadores culturais.
É que eles não têm tempo de pensar em tudo. Por isso aqui vai uma singela contribuição: a instalação urgente de um escritório do Sindicato Internacional dos Panificadores, um grupo irreverente nascido na Bélgica que pretende ‘‘assassinar pelo ridículo todas as celebridades mundiais que se levam muito a sério’’.
As armas desse grupo são tortas que por questão de estratégia não são fabricadas por eles, são compradas nas confeitarias locais onde se dá o ataque. Os guerrilheiros do Sindicato Internacional dos Panificadores garantem porém que eles só buscam material-munição de primeira qualidade, da massa até o recheio de creme.
O sindicato anda crescendo, antes atuava somente na França e na Bélgica, mas sua última manifestação foi em Bangcoc alvejando o presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Michel Camdessus, na face esquerda comum belíssimo exemplar de coloração vermelha desses petardos. Os estrategistas recomendam que as tortas sejam armadas com vastíssimas quantidades de creme, pode também ser acrescentado o chantilly para que com a mistura conseguida se obtenha um material mais viscoso. E não basta atirar a torta. Para que o trabalho seja perfeito é preciso esfregá-la.
Bill Gates, Jean Godard e muitos outros já foram vítimas das tortas do sindicato. Se fosse montado um escritório aqui a lista poderia ser grande. O único perigo é que muita gente estaria doida para entrar na lista. A maldade então seria ignorar esse pessoal.

mockup