O som não se propaga no vácuo
Ricardo Prochet
Durante toda minha vida profissional somente uma pessoa obteve meu credenciamento de ‘‘chefe’’, muito embora muitos e muitos já tenham ‘‘mandado’’ em mim. Ele se chamava Alberto Soares e era um senhor de idade que sonhava loucamente com sua aposentadoria e a empresa não permitia que ele se retirasse para o merecido descanso e convívio familiar. Alberto me ensinou muito do que sei sobre gerenciamento e jamais se furtou a transmitir qualquer conhecimento que ele dominasse em função dos longos anos de estrada.
Dos que somente ‘‘mandaram’’ sem jamais obter o credenciamento, um merece destaque especial. O nome dele era Brioquini, um italiano fisicamente muito forte e de uma infantilidade sem precedentes, pois qualquer problema do cotidiano da empresa que acabava tendo que ser levado a ele, fatalmente pedia tempo para conversar com seus botões e antes mesmo do camarada sair de sua sala ele dava início ao bizarro diálogo. Confesso que jamais soube de sequer uma ação de sucesso proposta pelos botões americanos de sua camisa importada.
Em 1989 acabei sendo promovido e fui cuidar de outro setor, entregando minha divisão a um novo gerente, que havia saído da empresa uns anos antes e retornava naquele momento após ter sido despedido do lugar de onde vinha. O sr. Azaire, fazendo justiça ao nome, não demorou a transformar o lugar em reconhecida desorganização quase enlouquecendo a todos os funcionários que estavam habituados primeiramente ao Alberto Soares e depois a mim, que seguia os mesmos princípios tão bem ensinados pelo primeiro.
Depois de um ano, chegou um comunicado de que sofreríamos uma auditoria completa da matriz norte-americana que acabou levando o Brioquini a ter que se envolver mais efetivamente com o departamento, descobrindo as peripécias do sr. Azaire. O pânico tomou conta dele e de seus inseparáveis botões quando apurou que os principais controles de gestão não eram mais exercidos desde o dia em que eu saí da divisão. Para os americanos, a fragilidade nessa tarefa era severamente punida com demissões ou perversamente, com a humilhação do rebaixamento de função e perda dos galões e até mesmo ‘‘botões’’.
Imediatamente fui convocado para fazer um preciso diagnóstico e oferecer uma solução de curto prazo que contribuísse para iludir a auditoria e evitasse o vexame a que a empresa estava exposta quando da chegada dos gringos para a famigerada avaliação. Depois de um dia de intenso trabalho, procurei o Brioquini e dei início ao relato de todas as inconformidades que havia encontrado. Enquanto falava, ele me olhava e mexia os olhos de um lado para o outro como se tentando absorver a importância do que dizia, bem como os riscos para sua carreira, que eram bem mais relevantes do que ele e seus famosos botões estavam aptos a compreender.
Ao finalizar, ele respirou profundamente, absorvendo considerável quantidade do pesado ar do ambiente. Olhou para os botões em silencioso debate, pensou e me disse apontando para primeiramente para o ouvido direito e depois para o outro: ‘‘Olha, Prochet, tudo o que você falou entrou por aqui e saiu por aqui.’’ Fiquei inicialmente chocado, pois aquele que mandava em mim ou não havia compreendido a gravidade da situação ou estava me gozando ou quem sabe até havia entendido e surtado diante da gravidade dos fatos que apresentara.
Não me contive e rápido como um raio disse a ele que era impossível ter entrado por um ouvido e saído pelo outro porque o som não se propagava no vácuo. Acho que até hoje ele deve estar pensando e conversando com os botões na vã tentativa de entender o que eu quis dizer com esse irrefutável princípio da física moderna.
- RICARDO PROCHET é administrador de empresas e escritor em Londrina

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