O sol é novo a cada dia
Não há nada de tão absurdo que o hábito não torne aceitável. O pensamento, de Erasmo de Rotterdam, o humanista holandês, muito nos ensina a respeito de coisas completamente absurdas que estão ocorrendo no País. A começar pela corrupção, que, como vírus traiçoeiro, ataca sorrateiramente, invadindo consciências, refazendo princípios, moldando valores, ajustando posicionamentos e construindo perfis em todas as classes sociais. É terrível constatar, mas a verdade é assustadora: a corrupção está profundamente inculcada na alma brasileira. E seus sintomas assumem dimensões das mais variadas.
A propina exígua, cada vez mais expandida pelos espaços da economia informal, é capaz de abrir um espaço para os carros nas ruas congestionadas, sem o receio de encontrarmos o pneu furado. A gorjeta mais gorda faz adiantar processos no meio judiciário, adiantando decisões e queimando etapas. As propinas mais gordas abrem buracos nas penitenciárias, corrompem policiais, para não falar até de juízes, cujas sentenças foram calçadas na força da grana.
O dinheiro do Produto Nacional Bruto da Malandragem (PNBM) arrebenta os cofres de municípios e Estados, gera superfaturamento nos custos de concorrências, ganha de maneira vilipendiosa, expande o narcotráfico e costura, com linha de aço, a formidável malha do poder invisível, que acolhe burocratas de todos os níveis da administração pública, empresários corruptos e políticos desonestos.
A cada dia, as páginas dos jornais e noticiário dos telejornais abrem espaços cada vez maiores para a corrupção. Que, de tanto aparecer no nosso cotidiano, vai se acomodando, de maneira sub-reptícia, nas nossas consciências, como extensão das linguagens cotidianas e esteira de comportamentos miméticos. Ou seja, a gravidade e a feiúra da corrupção, de tanto aparecer aos nossos olhos e ouvidos, vão assumindo posições banalizadas. E a banalização, como uma colcha impermeável de plástico duro, acaba insensibilizando a nossa pele e os nossos sentimentos.
A mesma coisa podemos dizer da violência. A morte, que, aos borbotões, bate em nossos sentidos, no dia a dia da violência estandardizada das periferias urbanas, já não mais nos assusta. É coisa corriqueira. A morte não dói mais que uma dor de dente, um esbarrão, um tropeço, assustando mais quando envolve pessoas próximas. É terrível, mas a violência banalizada está gerando ilhas de insensibilidade social.
Os números se perdem no caudal de informações, as características da monstruosidade se diluem na vazão constante de casos escabrosos, situações estapafúrdias, eventos de rudeza estúpida, que, iguais a trovões tonitruantes, já não nos fazem subir às cadeiras, como fazíamos antigamente, pela constância que acaba amainando, em nossos ouvidos, a intensidade dos estrondos.
É como a raposa diante do leão, na fábula de Esopo. Na primeira vez que viu o leão, a raposa tomou um enorme susto. Na segunda, teve medo, mas não ficou tão apavorada. Na terceira vez, a raposa aproximou-se do leão e bateu um papo gostoso, como se fossem velhos conhecidos. O hábito, diz o filósofo, ameniza até coisas horrorosas e assustadoras como a corrupção e a violência.
Quando se pensa que a podridão está sendo banida do território, eis que surge, renascida, replantada, revigorada por mecanismos de realimentação, cujos fluxos repousam sobre a carcomida cultura política, responsável, ainda, pela perpetuação de costumes das velhas capitanias hereditárias.
A rapinagem, a corrupção, a violência projetam a sua máscara fria sobre a cabeça da sociedade. E se esses fatores criam uma gigantesca onda de banalização, são também responsáveis pela descrença, pela repulsa, pela distância que os cidadãos estão criando em relação à política e a seus agentes. Mas o vírus da ruindade acabará atacando sua própria natureza.
Em determinado momento, a pessoa pára e pensa: é hora de dar um basta. A racionalidade se exprime com toda a força. E encorpa as decisões no sentido da mudança. A cultura da corrupção acabará empurrando o País para o espaço da ética. Mesmo os corações mais insensíveis hão de concordar com a lição de Heráclito, quando ensinou: o sol é novo a cada dia. Amanhã não seremos o que fomos.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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