Gosto desta frase de G. K. Chesterton, um escritor inglês famoso por seu personagem Padre Brown e sua apologética cristã: “Remova o sobrenatural e você não encontrará o natural, mas o não natural”. Nestes dias, os cerca de 1.406 bilhões de católicos celebram a Páscoa. A ressurreição de Jesus não é comprovável nem cientifica nem historicamente. É testemunho dos seus discípulos, que garantiram logo após a sua morte, terem visto o túmulo vazio e acima de tudo, O terem encontrado nos caminhos da Palestina. Anunciaram aos “quatro ventos” que Ele estava vivo e os acompanharia até ao final dos tempos. O cristianismo nasce então, desse Mistério central: a morte e a ressurreição de Jesus de Nazaré, chamado o Cristo (messias). O Jesus histórico, narrado nos Evangelhos e mesmo pelo historiador romano Flávio Josefo, deu lugar ao “Jesus da fé”, o Cristo que devia vir a este mundo. Paulo e outros convertidos, iniciaram a elaboração conceitual da doutrina cristã que ganhou corpo (quase definitivo) nos Concílios de Niceia (325) e Constantinopla (381).

Mais do que uma religião elaborada, falamos de uma crença. Fé numa Pessoa, que afirmamos ser o Filho de Deus. O Papa Bento XVI dizia com muita propriedade: “a fé não é uma adesão intelectual a uma doutrina, mas uma relação pessoal com Cristo, o Messias de Deus". E mais do que uma experiência íntima, é uma adesão, um seguimento, um compromisso com as teses que Ele mostrou enquanto viveu entre os homens. Em Jesus de Nazaré, o sobrenatural penetrou o ordinário da existência humana e lhe deu um significado pleno. Tem razão o escritor inglês! O natural se reveste de consistência quando é iluminado pelo sobrenatural. A vida histórica do homem Jesus de Nazaré é relida e contada a partir da sua Ressurreição. Não à toa, que os primeiros capítulos dos evangelhos a serem escritos, são os últimos e não os primeiros!

A celebração da Páscoa para os crentes é também uma injeção de ânimo e esperança, tão necessários nos dias de hoje. A pedra removida da sepultura, garante que a morte não é a última palavra ou o cemitério o final da linha. Mas não apenas isso! Onde muitos enxergam o final, a desgraça, um sem sentido gritante para a existência, os cristãos têm o dever moral de ecoar as palavras do ressuscitado: “Não tenhais medo”! Hoje, mais do que nunca, os humanos são testados no fogo, quanto à sua resiliência e resistência aos episódios que resultam de agentes maléficos e de uma cultura de morte que tenta se impor sobre a civilização ocidental. Nunca antes, a fé foi tão necessária!

Não nos passa desapercebido que inúmeros acontecimentos recentes, envolvendo extrema violência, tenham como protagonistas homens e mulheres “crentes”! Este paradoxo, tão antigo quanto a história das religiões, é extremamente doloroso e intragável. “Nem todo aquele que diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21), nos adverte o próprio Cristo. Por sua vez, aprendemos no último século a reconhecer que gente “de boa vontade” e sem religião, está na linha da frente na construção de um mundo melhor.

Páscoa é sinónimo de vida. É Primavera, onde tudo se renova. No Hemisfério Norte é palpável esse “milagre” na Estação que agora começa. O viçoso verde permeando os tapetes floridos de campos exalando vida, revela que o inverno rigoroso, não foi mais do que um ligeiro interregno e que forjou corpos e mentes para o que se adivinhava. Quem vos escreve, teve dificuldade em vivenciar o tempo Pascal no nosso Outono! Contudo, aprendi que em qualquer situação faz-se mister irradiar a esperança e a alegria que nada pode roubar. As incertezas que caracterizam esta pós modernidade, em que dos escombros nos levantamos a duras penas, não sufocarão jamais a ânsia de uma vida digna para cada ser humano neste mundo e a Plena, após esta caminhada.

Pe Manuel Joaquim Rodrigues dos Santos

Arquidiocese de Londrina

mockup