Na abertura do Sínodo dos Bispos para a América, iniciado essa semana na Basílica de São Pedro, no Vaticano, o Papa João Paulo II discursou sobre as diferenças sociais entre a América do Norte e o resto do continente. Elas seriam o resultado, segundo o pontífice, ‘‘do trabalho dos colonizadores, com incontáveis repercussões culturais e religiosas’’. E perguntou o papa: ‘‘Em que medida elas (as diferenças sociais entre as três Américas) têm suas raízes na história dos últimos cinco séculos? Até que ponto são um legado da colonização? Que influência teve a primeira evangelização?’ (Folha de S.Paulo, 17/11/97)
O propósito do Sínodo é o de responder a essas perguntas, mas na verdade já existem respostas a tais indagações que aparecem em várias obras bastante sérias. De minha parte, fico feliz em poder colaborar com o Papa, uma vez que no meu livro ‘‘América Latina - Em busca do Paraíso Perdido’’, editado pela Saraiva, trato exaustivamente da influência da Igreja Católica na América Latina, influência associada inicialmente à Espanha e a Portugal. Afirmo, inclusive, que nós latino-americanos fomos forjados pela cruz e pela espada que ficaram impressas nos nossos valores, nas nossas atitudes e na nossa visão de mundo. Ressalvo, porém, que não fiz um estudo da religiosidade ou de uma interpretação do sagrado, mas sim tentei demonstrar o desvio da religião para o mundo racional da política e da economia, e as consequências daí advindas em termos históricos e culturais. Minha abordagem nada teve a ver com fé, santidade ou salvação.
Como é impossível resumir um livro de 443 pp. neste espaço, limitar-me-ei a colocar um pequeno trecho do que escrevi, salientando tão-somente uma breve visão da colonização da América espanhola:
Disse Demétrio Ramos Perez que ‘‘colonização espanhola e colonização católica são sinônimos históricos que obedecem a uma variedade de razões ideológicas e políticas’’. Este aspecto não deve causar estranheza, na medida em que o Estado espanhol tinha como finalidade na conquista e colonização americana - além, é claro, dos objetivos econômicos e políticos sempre presentes nesse tipo de empresa - a propagação da religião, a manutenção das tradições e a defesa do território. Mas, como apontou Vives, ‘‘no plano teórico, o fim religioso se hipertrofiou até se tornar o mais importante, e daí o caráter confessional do Estado.
Esse caráter confessional foi reforçado pela missão evangelizadora do Estado e cristalizado na instituição do régio patronato, através do qual os papas outorgavam aos reis: jurisdição disciplinar em matérias mistas, provisões de bispados, faculdade de reter e examinar bulas e breves pontifícios, direito sobre rendas, cobranças de dízimos e missões com obrigação de cristianizar os índios. Através do régio patronato, Estado e Igreja entrosaram poderes e influenciaram-se mutuamente.
Indistinguiu-se, pois, a finalidade evangelizadora dos aspectos temporais da colonização. Assim, se a catequese dos índios produziu frutos muito limitados no século XVI, em compensação a ‘‘Igreja visível’’ proliferou através de templos, dioceses, conventos, estabelecimentos beneficentes, etc. Ao mesmo tempo, o patrimônio das ordens religiosas era considerável, consubstanciado em vastas porções de terras, em propriedades urbanas, em riquezas mobiliárias, em escravos, etc.
Quanto às atitudes e comportamentos dos religiosos no Novo Mundo, pode-se dizer que eram marcados pela contradição e pela ambiguidade. Entre a ética da piedade e da pureza e a vivência concreta, havia uma grande distância, camuflada pela simulação evangelizadora. Essa situação - derivada da condição do clero espanhol - foi observada por vários estudiosos. Como observou Tulio Halperin Donghi: ‘‘O clero secular reproduz, com bastante fidelidade, virtudes e defeitos do corpo administrativo, do qual, em certo sentido, faz parte. As modificações da orientação oficial não impedem que as mais altas hierarquias conservem uma preocupação bastante mundana pela própria carreira, que se expressa na dócil obediência a diretrizes gerais da política real e em outros indícios menos decorosos’’.
A influência da Igreja não foi, pois, apenas espiritual. Na medida em que era um poder unificado ao da Coroa, com frequência se tornava difícil distinguir o piedoso sacerdote do colonizador implacável. Segundo o historiador nicaraguense, José Dolores Gámez, ‘‘cada bispo era efetivamente um reizinho tão despótico quanto os governadores espanhóis’’.
Desse modo, o zelo religioso se converteu na imposição de um domínio que era ao mesmo tempo político e espiritual, e cuja rigidez não admitia outra crença ou outra lealdade. Esse domínio submeteu pela violência o que não podia obter pela persuasão, como é tão comum acontecer nas razões de Estado onde os fins justificam os meios, e os meios costumam assumir as mais variadas máscara éticas na busca de legitimização e de consentimento.
Por isso, e por muitos outros aspectos impossíveis de serem aqui resumidos, teve toda a razão Carlos Rangel quando afirmou: ‘‘A Igreja Católica teve mais responsabilidade que nenhum outro fator no que é e no que não é América Latina’’.

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