O simbolismo de Drácula
Olho a meu redor nesse final de século. Vejo e sinto. O espetacular avanço tecnológico nos conduz às estrelas. A lua já está ao nosso alcance, perdendo o charme de sua face oculta, esvaziada de São Jorge montado no cavalo branco a matar o dragão. Alarga-se o macrocosmo, enquanto uma estação espacial vai sendo construída. E na mutação acelerada, costumes e valores se alteram celeremente.
Vislumbro um certo tédio num mundo que se desencanta sem as perplexidades do passado onde tudo era resolvido pela magia. Quase não há mais mágica. As facilidades e a pressa acabaram com ela. O mundo se tornou cínico. Banalizou-se. Vivemos num planeta sem pudor onde os relacionamentos são travados superficialmente sem as filigranas do romantismo e da etiqueta.
Observo mais. Falta genialidade nas artes, no teatro, na literatura, na música. Mediocrizada a vida, a morte perde o sentido. A criminalidade deriva da indiferença e falta remorso no mundo atual por falharem valores e crenças.
Inquieto e apressado, o ser humano prossegue sua caminhada. Busca atalhos para a felicidade, tentando agarrar-se sem muita certeza a ideais perdidos, a valores desfeitos. Faz pose de emancipado mas anda falto de alguma coisa que realmente preencha seu microcosmo. A todo momento corre o risco de se tornar descartável na família, que se desagrega; no emprego perdido; na vivência atomizada das multidões.
A vida moderna traz conforto e insegurança. Há um certo desenraizamento às vésperas de 2001. Doenças novas atormentam a humanidade como a Aids e a Síndrome do Pânico. Simultaneamente meios de sobreviver são ampliados pela ciência, enquanto se busca obsessivamente motivações para viver. Estas, quando mal resolvidas, podem se consumar na droga, flagelo principalmente de uma juventude que é rebelde sem causa desde que foram rompidos os limites dos relacionamentos amorosos e dos comportamentos sociais.
Confunde-se o bem e o mal nesse ocaso de século que não precisaria da hipocrisia elisabethana, mas onde se padece da liberalização excessiva que leva as pessoas a darem voltas ao redor se si mesmas em busca do que é relevante. E há uma brutalidade ostensiva no findar de milênio, que se reflete nas tragédias urbanas e nos meios de comunicação. Mesmo porque, os que produzem entretenimento sabem que a humanidade se contenta com pouco, prodigalizando então o grotesco em grandes doses para saciar as massas que desta forma desforram seus descontentamentos e suas frustrações.
Faltam estórias de fadas, contadas para as crianças antes de dormir, porque seus pais não têm mais tempo ou estão cansados demais para se sentarem à noite perto das cabeceiras de suas camas. Sem a imaginação brotada de mundos fabulosos, meninos e meninas sem amor dormem diante da televisão para acordarem precocemente adultos num mundo onde o tempo de infância é cada vez menor.
Claro que o ser humano é o mesmo de épocas passadas. Seus sentimentos bons ou maus, suas ansiedades ou esperanças, sua busca do sagrado e da riqueza material, sua capacidade de amar e odiar, nada disso se modificou. O que mudou foi o contexto social a reboque de uma nova cultura. Afinal, não se pode omitir o sangue que jorrava na arena do Coliseu romano, ou deixar de lembrar a violência e a coragem desmedida dos cavalheiros medievais que se enfrentavam em brutais guerras travadas corpo-a-corpo. Nem se deve omitir o fanatismo e a ignorância que sempre campearam neste planeta, e que nas sociedades primitivas levavam aos sacrifícios humanos para aplacar deuses ou forças da natureza; ou que através da Nova Inquisição se evidenciaram ao mandar quebrar, torturar, queimar os corpos de impenitentes hereges.
Possivelmente as sociedades passadas, em alguns de seus aspectos, eram mais cruéis e impiedosas do que a nossa. Mas o que interessa é como vivemos em nossa época, e como devemos enfrentá-la. Mesmo porque, no nosso tempo sempre somos combatentes. Cada guerreiro sabe disto, e só a ele compete escolher as armas com as quais lutar. Pode optar pela honra, a verdade, o amor, a liberdade, a dignidade, a honestidade, a coragem, ou sucumbir ao sistema.
De todo o modo, nota-se tal inconsistência na atualidade, que às vezes a sensação é a de vagar entre mundos paralelos sem pertencer a nenhum deles. Ao mesmo tempo, a padronização que vai se impondo esmaece os limites entre esquerda e direita no campo das ideologias, entre o certo e o errado nas questões morais. Como nômade de si mesmo, o homem deixa a solidão intrometer-se em suas relações superficiais. Anseia pelo inusitado, e ele não vem.
Fazendo apelo ao mito do Conde Drácula, digamos que vivemos vampirizados numa era onde se busca incessantemente a energia vital, que para aquele personagem era obtida através do sangue. Só que no conde tudo é superlativo. Ele é o grande solitário que vaga desesperado entre o mundo dos vivos e o dos mortos sem pertencer a nenhum. É o incomparável sedutor que leva as mulheres ao êxtase ao cravar em suas jugulares os pontiagudos caninos. É o deslumbrante romântico, sempre em busca de sua noiva amada através de toda a eternidade. É o espetacular líder na versão original da história, que busca sem vacilar o poder.
O marcante do Conde Drácula é que nele não há meio termo. A solidão, a busca amorosa, a momentânea monstruosidade, o charme e a elegância, tudo é grandioso. Diante disto, qual mulher não se colocaria vestida de branco na torre de um castelo, a esperá-lo diante da janela aberta? Afinal, alguma de nós pode ser a noiva procurada há séculos. No mundo desencantado de hoje, onde tudo é por demais passageiro, medíocre e sem romantismo, o simbolismo de Drácula, o eterno, não deixa de ser um contraste estonteante. E apaixonante.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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