Com o passar de tempo a magia do Natal que povoava a infância refunde-se em outras esferas de sentimentos e, desse modo, a expectativa de receber presentes cede ao prazer de presentear, o desfrutar despreocupado da festa é superado pelo dever de organizar e servir, e o futuro vislumbrado pela criança como o brinquedo do dia seguinte converte-se nas recordações do passado. Nas sombras de ontem vagueiam saudades e rostos, sorrisos e gestos para sempre guardados na memória entre sinos e bolas coloridas.
Assim funciona a maturidade, período onde é possível atingir melhor compreensão dos simbolismos de uma data, não só importante para a cristandade, mas incorporada de maneira universal. É que no Natal funciona um breve intervalo de solidariedade e generosidade, acalentadas por luzes de velas, calor de abraços, vibração de cânticos.
O que se comemora, muitos não sabem, ou não querem saber, perdendo-se o conteúdo religioso da festa. Os cristãos, porém, aparados por suas crenças, se rejubilam pelo nascimento de Deus sob a forma de um frágil menino, e louvam seu Salvador.
Presente portanto no Natal, como símbolo mais forte, a encarnação, refletindo a necessidade do encontro entre o divino e o humano, fusão do visível com o Invisível, síntese do tangível com o Intangível, elevação da matéria ao espiritual. Ao mesmo tempo, da encarnação derivam outros ricos símbolos sobre os quais se pode refletir e, entre eles o símbolo do nascimento.
No nascimento reside a explosão da vida, sempre a recomeçar sobre a terra como promessa de eternidade, como gesto de doação e amor de Deus que se reflete num pequeno corpo, maravilha de Sua criação e perfeição. E se o pequenino que emerge para o mundo transpõe a mera condição humana, configura-se o símbolo da redenção tão ansiada pelo homem como caminho de volta à verdadeira pátria, perdida nos descaminhos do pecado. Deste modo, os que crêem em Jesus como Deus encarnado, curvam suas cabeças e louvam o Senhor de sua fé.
É verdade que nem todos partilham a mesma crença, mas não é menos verdade que, se vários são os nomes de Deus, Ele é apenas Um. Isso quer dizer que variam apenas as formas de adorá-lo ou de interpretá-lo, sendo que a idéia errônea de possuir a exclusividade de Deus, presente em certos grupos religiosos, só pode levar à intolerância e ao fanatismo que afastam de Deus.
Diante do secreto santuário que cada homem é feito, o respeito deve ser mantido, pois todos contêm o Sagrado. Por isso os hindus se inclinam de mãos postas para cumprimentar, simbolizando com isto o respeito que sentem pelo aspecto divino que há no outro. E se no hinduísmo não se festeja o Natal, seus seguidores não são menos religiosos que os cristãos, que nas suas divisões e subdivisões acreditam em Jesus como encarnação de Deus.
Tampouco se pode desprezar os budistas porque Sidarta Gautama, o iluminado, ou seja, o Buda, é seu mestre. E que importa se os judeus e os muçulmanos não aceitam a doutrina da reencarnação?
No seu artigo ‘‘O Significado da Encarnação’’, publicado no ‘‘O Estado de S. Paulo’’ de 14 deste, Karen Armstrong, ex-freira e professora de História das Religiões em universidades inglesas, dá uma lição magistral a respeito do assunto aqui tratado. Vejamos um pequeno trecho do texto de Karen, pois nestas vésperas de Natal suas palavras podem ajudar a meditar sobre a tolerância e a compreensão humanas, e a grandeza e o amor divinos:
‘‘Os cristãos, portanto, não deveriam achar que sua crença em Jesus como uma divindade os separe de outras religiões: ao contrário, é uma das doutrinas que poderia aproximá-los dos praticantes de outros credos.
Em todas as grandes religiões os seres humanos acreditam que Deus, ou o Sagrado, é transcendente e, dessa forma, vai além da experiência humana. Mas sempre insistiram, também, em que a divindade não é uma coisa que esteja fora de nós: ela é inseparável da nossa humanidade. Eles encontram Deus no mais fundo recesso de seu próprio ser. Se encararmos Deus como uma realidade distante, externa a nós, há o perigo de acabarmos por transformá-lo num ídolo. Essa divindade pode permitir que exteriorizemos nossos próprios preconceitos e desejos, que projetamos nesse Outro Ser, encarado como uma panacéia, uma realidade alternativa para o mundo em que vivemos.
Em vez disso, o que a doutrina da Encarnação nos demonstra é que, de alguma forma extremamente misteriosa, Deus está intimamente ligado à condição humana. Essa crença é que tem permitido que homens e mulheres, pelo mundo afora, cultivem o sentimento da sacralidade do humano. Se virmos nossos irmãos humanos como emanações de Deus ou, como diriam os cristãos, se virmos Cristo no outro, será impossível explorar, manipular, ferir ou matar esse outro, seja por que razão for. Ou, ao menos, seria impossível fazer isso em nome da religião’’.

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