O silêncio não é uma simples ausência de ruídos. Como se vive sob o efeito constante dos ruídos, o silêncio é apresentado, erroneamente, como o oceano pacífico da morte. Bom lembrar aos crentes em Javé, Jesus e Alá, que Deus é infinitamente silencioso. Dezoito anos da vida de Jesus se passaram no silêncio na pacata Nazaré. Ele meditou 40 dias em silêncio no deserto. Moisés e Elias também passaram 40 dias de solidão com Deus.
Um dos maiores tesouros que o Cristianismo perdeu foi o silêncio dinâmico. Talvez seja esta uma das principais razões da sua ineficiência na sociedade, sustenta Huberto Rohden (1893-1981), autor de ''Alma para Alma'', filósofo e educador brasileiro, biógrafo de Einstein, Pascal, Gandhi, Jesus de Nazaré e Paulo de Tarso. O silêncio é receita - o ruído é despesa. E quem tem mais despesas do que receitas, abre falência. Aliás, a sociedade atual passa um irreversível processo de falência.
Diz Mahatma Gandhi: ''O silêncio já se tornou para mim uma necessidade física e espiritual. Inicialmente, escolhi-o para aliviar-me da depressão. A seguir, precisei de tempo para escrever. Após havê-lo praticado por certo tempo, descobri, todavia, seu valor espiritual. E de repente me dei conta de que eram esses os momentos em que melhor podia comunicar-me com Deus. Agora sinto-me como se tivesse sido feito para o silêncio''. E acrescenta: ''A experiência ensinou-me que o silêncio faz parte da disciplina espiritual de um seguidor da verdade. A tendência a exagerar, a eliminar ou modificar a verdade, consciente ou inconscientemente, é uma fraqueza natural do homem. Para vencê-la, é necessário o silêncio. Um homem de poucas palavras dificilmente será leviano nas suas conversas: medirá as palavras''.
Diante da cultura de agressão em que se vive hoje, de competição e guerra, ainda tateamos em busca da ordem e da paz. Para além da palavra, está o silêncio; para aquém da palavra, o barulho. O ruído, inarticulado ou articulado, foi sempre o inseparável companheiro do homem incompleto, desde os gritos estridentes das hordas antigas até os gritos orquestrados das hordas modernas.
A mensagem dos grandes mestres silenciosos perdura através dos milênios, porque não é afetada pelas categorias de tempo e espaço. A palavra constrói para o tempo, e, não raro, destrói o que construiu. O silêncio constrói para a eternidade.
O amante da palavra pensa que o amigo do silêncio seja um homem triste e misantropo - mas o amigo do silêncio vive num paraíso de felicidade, ainda que a sua beatitude se encontre numa outra dimensão, ignorada pelo idólatra do ruído e da palavra. O silêncio é a agonia do ego. E, por isto, os ególatras têm horror ao silêncio, porque têm horror ao egocídio.
O ambiente vital do ego é o ruído, seja material, mental ou emocional. O ego não vive sem ruídos e barulhos. Quando então lhe falta esse indispensável elemento vital, sente-se o ego como que sem ar, sem alimento, e, se não consegue adaptar-se ao ambiente do silêncio, acaba morrendo de asfixia e inanição.
O ruído é dos homens - o silêncio é de Deus. O ruído esteriliza - o silêncio fertiliza. Deus é infinitamente silencioso, e quanto mais o homem se aproxima de Deus, mais silencioso se torna. O silêncio não é simplesmente a ausência de som ou ruído; ele é um estado positivo e específico de consciência. A cultura barulhenta dificulta fechar os ouvidos externos, aquietar a agitação constante da mente, abrandar o torvelinho incessante do coração.
O silêncio não é uma meta em nossos dias. Muitas pessoas que se aproximam dele acham que é assustador, entram em pânico e fogem. Todos os sons criados por Deus tiveram início antes do nascimento do homem, devem continuar incólumes e imutáveis durante toda a vida e se estenderão para além da morte. Tal som poderá ser percebido como silêncio. A palavra é de prata. O silêncio é de ouro. As duas afirmações contêm a sabedoria de milênios de evolução humana.
JOSÉ FIORI, é jornalista em Curitiba

mockup