Grande parte dos norte-americanos apóia a pena de morte. Não há dúvida disso. E esses ainda são maioria. As execuções são acompanhadas com avidez pelos parentes das vítimas e pelos curiosos mórbidos. A população até elegeu presidente a George W. Bush, notório partidário da pena capital que a aplicou mais de 150 vezes em sua terra, o Texas.
Mas algo está mudando. As pesquisas mostram isso. Uma, feita recentemente, aponta que 65% dos americanos defendem a morte de criminosos – uma queda de 14% desde a década passada. Parece pouco? Não é. Numa sociedade violenta como a dos Estados Unidos, que convive pacificamente com o forte lobby das indústrias de armamento (foram elas que mais doaram dinheiro para a campanha de Bush) e onde rambinhos invadem escolas e fuzilam colegas e professores inspirados em filmes de Hollywood, é muito.
Aos gritos de protesto dos grupos de defesa dos direitos humanos contra uma das punições mais cruéis e questionáveis do mundo, juntaram-se motivos fortes para a mudança de rumo na consciência americana. Os exames de DNA, um dos muitos e gratos avanços tecnológicos das últimas décadas, trouxeram a público trágicos erros da Justiça dos homens. Além disso, líderes religiosos importantes, como o televangelista e ex-presidenciável do Partido Republicano Pat Robertson, abraçaram a causa da moratória da pena capital.
A sociedade americana também anda incomodada com o circo montado em torno de cada execução. Foi assim no ato final de Timothy McVeigh, 33, condenado e morto por injeção letal em 11 de junho do ano passado, com direito a transmissão em circuito fechado de TV para 315 convidados. O Diabo de Oklahoma, que explodiu um prédio federal em 1995, matando 168 pessoas, transformou sua agonia no corredor da morte numa cruzada pela liberdade e valores norte-americanos. Os fanáticos de direita deliraram.
A decisão da Suprema Corte dos EUA esta semana, de dar aos jurados (e não mais aos juízes) o direito de condenar à morte uma pessoa, suspendeu automaticamente 168 condenações desse tipo. É um passo importante num país que mostra sinais de modernização do sistema penal – Illinois abandonou a pena capital e Arkansas e Carolina do Norte aprovaram programas de apoio legal a presos. Afinal, essa sentença já foi banida há muitos anos na Europa. Como a maior potência mundial pode ainda recorrer a prática tão suscetível a injustiças e erros jurídicos?
GRACIELA URQUIZA MENDES é jornalista em Brasília

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