O governo Fernando Henrique Cardoso, mesmo de saída, pretende dar uma forcinha para que famílias de ''baixa renda'' no Brasil tenham acesso a automóvel. É o programa ''carro próprio'', que deve ser formalmente lançado no próximo dia 10 durante o Salão do Automóvel.
O que surpreende no recém-criado plano de incentivo do governo federal nem é o fato de o Poder Público imiscuir-se em assunto que não lhe diz absolutamente respeito. Afinal, cabe ao governo garantir à economia alguma estabilidade e juros civilizados. O resto, como vender carro, deveria ficar por conta do setor privado, de preferência sem palpite oficial.
Mas o que realmente causa espanto no pré-anúncio do governo é o enquadramento de ''famílias de baixa renda'' como sendo as que têm ganho mensal de R$ 1 mil a R$ 2 mil. Capazes, portanto, de arcar com prestações de R$ 179 durante três anos, a partir dos quais acumularão uma poupança para a aquisição do modelo popular. Após esse período, o feliz comprador terá pago o equivalente a 50% do valor do carro e financiará a outra metade pelo sistema bancário.
Como se vê, é uma ajuda e tanto para a população pobre. E ainda tem mais. Para incentivar os compradores, serão realizados sorteios nos três primeiros anos de capitalização. Com sorte no jogo, o comprador conseguirá circular com o seu 1.0 novinho em folha antes mesmo de entrar na ciranda dos juros.
Bastaria uma rápida consulta ao seu próprio site (a página do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística na internet), para o governo descobrir que o público-alvo do programa (9% dos brasileiros, que ganham de 5 a 10 salários mínimos), está longe de compor a ''baixa renda'' do País. Existem outros 68% de cidadãos abaixo da linha de pobreza, pelo conceito do governo se virando todo mês com meio a cinco salários mínimos e formando a base da pirâmide social brasileira, bem mais larga nos anos FHC.
Ruth Meira

mockup