O servidor do público - Maria Elisa Ferraz Paciornik
O servidor do público
Maria Elisa Ferraz Paciornik
A virada do século se apresenta com grandes mudanças, propondo novos paradigmas em todas as áreas. No poder público não é diferente. Houve um tempo em que setor público se chamava repartição e que as famílias buscavam para seus parentes pouco dotados um empreguinho no Estado. Pessoas influentes também conseguiam privilégios iguais a esses, e conseguiam se aposentar sem nunca terem aparecido no local de trabalho.
Aos olhos da população, a imagem ainda é de fila, paletó na cadeira, descaso no atendimento.
Assim, se o poder público aparece como um monstro incapaz de se mover e de atender às necessidades básicas da população, o servidor público leva a pecha de incompetente e relapso, muitas vezes, corrupto. (É bem verdade que o sistema vigente nunca ajudou: se a estabilidade tirou sua capacidade de competir, a impossibilidade de ser remunerado pelo seu desempenho contribuiu para diminuir o entusiasmo. Sem falar no pagamento similar a servidores que não trabalham). Lamentavelmente, ambos, o poder público e servidor passaram a fazer parte do anedotário nacional.
Hoje a realidade é outra. Já não há mais clima para humor. A população paga com sacrifício seus impostos e exige um retorno em obras e serviços. Em suma, exerce sua cidadania. O poder público vem deixando, ou vem sendo obrigado a deixar, neste final de século, sua posição paternalista e de investidor, para se ater ao que é essencial ao serviço público.
A profissionalização do serviço público é prioritária. Já não há mais espaço para parentes ou amigos que não produzem. Estamos vivendo tempos em que o emprego fixo se desfigura e delineia-se o conceito de empregabilidade. A formação, a vivência, a capacidade de resolver conflitos são os maiores requisitos que os profissionais podem ter.
É preciso, no entanto, conhecer de perto a figura do servidor, que hoje, 28 de outubro, comemora o seu dia.
Vamos falar da grande maioria dos servidores públicos, não de poucas exceções. É esta grande maioria que executa com dignidade suas tarefas do dia-a-dia; anonimamente, desenvolvem com dedicação seus serviços em benefício da comunidade; é gente que tem no idealismo o ingrediente principal para o desempenho de suas funções. Você pode encontrá-los técnicos agrícolas, médicos, enfermeiros, policiais, professores nos recantos mais recônditos de nosso Estado. Usando criatividade, buscando, muitas vezes, com seus próprios meios e com ajuda da comunidade uma melhor prestação de serviços. Você pode também encontrá-los nos escritórios, desenvolvendo um trabalho sério e competente, merecedor de todo nosso respeito.
Já tive, pessoalmente, como cidadã, vivendo uma situação de grande perigo, a necessidade de recorrer à Polícia Militar. Fui maravilhosamente bem atendida e me senti protegida. Ouvi ainda de um instrutor, entre muitos outros, o relato da experiência de uma professora do interior que consegue, com a ajuda da comunidade, levar seus alunos para conhecer as cidades históricas e aprender com a vivência o que se aprende nos livros.
Um colega nosso de trabalho, de condição muito humilde, achou na rua, certa feita, uma carteira de uma gerente de banco: com dinheiro, cartões e documentos. Teve dificuldade em acessá-la mas, quando conseguiu, ela ficou extremamente grata pela devolução completa de seus pertences. Ele não aceitou pagamento por isto.
São algumas histórias positivas do cotidiano, de profunda expressão humana, só que, como exemplo de boas experiências, não são notícias.
Dentro de nossa atual conjuntura, dificilmente você vai encontrar a sua própria assinatura em um grande projeto, embora, muitas vezes, toda a execução e o sucesso do mesmo tenham sido resultado do seu trabalho e de sua dedicação.
O servidor público é anônimo, até o momento em que faça algo errado. No coletivo, é normalmente conhecido como o pessoal ou recursos humanos. Ficou encerrada aí sua condição de gente; a cada quatro anos, tudo muda: ele é transferido, relocado, deslocado para qualquer lugar, independente de sua formação, currículo ou serviços prestados.
Perdem todos: o servidor, o governo, a população.
No entanto, cada vez que é tratado com respeito, que lhe é dado um espaço para crescer, responde plenamente. É apenas um ser humano em busca de uma oportunidade de mostrar o seu valor.
Assim, nesta virada de século, quando a humanidade já está inserida neste intenso processo de mudança, é importante reconhecer os erros do passado, reprogramar o presente, para melhorar o futuro.
- MARIA ELISA FERRAZ PACIORNIK é secretária de Estado da Administração do Paraná





