O sentido profundo da educação - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de fevereiro de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
Na Quarta-Feira de Cinzas, como tradicionalmente acontece, foi lançado o novo tema da Campanha da Fraternidade, desta vez referente à educação. Sem dúvida, é um tema bastante oportuno, sendo que ao mesmo tempo deveria conduzir a uma reflexão por parte da sociedade brasileira e, especialmente, dos educadores.
Nesta reflexão, não se poderia desconsiderar o esforço do atual governo em prol da educação, mas apesar disto ser reconhecido com ressalvas por alguns membros da Igreja, causou-me certa perplexidade a entrevista recentemente concedida em Brasília por D. Raymundo Damasceno, secretário-geral da Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB). D. Damasceno considera a atual situação da educação como pior e afirmou no O Estado de S. Paulo de 26/2/98 que temos 32 milhões de analfabetos, sendo que este número é o dobro de 50 anos atrás. Como boa iniciativa, referiu-se ao programa Bolsa Escola do governo do PT no Distrito Federal.
Com todo o respeito pelas preocupações do secretário-geral da CNBB, gostaria de trazer aqui os novos dados sobre educação divulgados no mês de novembro de 97 pelo IBGE, e que foram levantados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 1996. Para tanto, reporto-me às palavras do presidente do IBGE, meu ex-colega da Universidade Federal de Minas Gerais, o sociólogo Simon Schwartzman, publicados no O Estado de S. Paulo de 28/11/97:
Os dados mais auspiciosos são, sem dúvida, os da educação, e, sobretudo, da educação básica. A Pnad confirma que a mobilização que tem havido no Brasil nos últimos anos em relação à educação básica tem encontrado eco e já mostra resultados. O analfabetismo vem caindo de forma cada vez mais rápida: era de 22,3% em 1980, 17,8% em 1990 e está em 13,8% em 1996 - entre jovens de 10 a 14 anos nas áreas urbanas não passa hoje de 5%. A Pnad mostra que 91% das crianças entre 10 a 14 anos estavam na escola em setembro de 1996 (com as disparidades regionais de sempre), o que torna realista a proposta do Ministério da Educação de se aproximar dos 100% das crianças na escola em curto prazo. A qualidade também tem melhorado. Vem aumentando o número de pessoas com primeiro e segundo graus completos. É um aumento lento, mas significativo. Em relação à população de 10 anos e mais (uma base de referência inadequada, mas que já permite uma comparação), a porcentagem de pessoas com secundário completo ou mais passou de 18,3% em 1981 para 25,4% em 1992 e 29,8% em 1996. Ainda é muito pouco, mas, no primeiro período, o crescimento anual foi de 0,64% e, no segundo, já havia passado para 0,88%. Todos os dados confirmam que há cada vez mais gente nas escolas e elas cada vez se educam mais.
Outros indicadores do Pnad mostraram também que com a estabilidade da moeda através do Plano Real melhoras do padrão de vida e de setores importantes da população puderam ser constatados. Assim, entre 1995 e 1996, mais de 2 milhões de domicílios passaram a ter serviços de esgoto, mais de 1,2 milhão passaram a ter iluminação elétrica, mais de 1 milhão passaram a ter coleta de lixo, mais de 1,4 milhão passaram a ter telefone, mais de 2 milhões, a ter televisão e mais de 1,7 milhão, a ter máquina de lavar roupa.
Evidentemente, continuamos a ter problemas, mas são inegáveis os avanços já alcançados, suficientes para nos manter em equilíbrio entre o pessimismo crônico e os exagerados arroubos de ufanismo, estes extremos por onde oscila o humor brasileiro. Um humor, diga-se de passagem, que costuma ser tangido pela ideologia de alguns grupos.
Com relação à educação, seria contudo interessante lembrar, voltando ao tema da Campanha da Fraternidade, que à encorajadora quantidade expressa na estatística é necessário adicionar uma reflexão sobre a qualidade. E nesse sentido, nada melhor que chamar o auxílio de um filósofo. Relembro, pois, a concepção de Platão. Conforme Chevallier, a teoria platônica de educação, a serviço da teoria da justiça, é efetivamente muito bela na medida em que consorcia o cuidado do aprimoramento individual com a eficiência social. Para o filósofo da Idéia do Bem, educar não é enfiar o saber numa alma que não o possui, tal como se transplantaria uma córnea para os olhos cegos. Educar é virar o olho interior do aluno (isto é, a sua faculdade de aprender, ou seja, essa força ativa constituída pelo seu espírito) na direção conveniente para que ele reaja da melhor maneira possível aos dados da experiência.
Esta magnífica lição deveria ser aprendida por todos os educadores, e sobretudo por aqueles que costumam se servir da sala de aula para doutrinar e não para educar. Estes últimos não conseguem aliar o aprimoramento individual com a eficiência social, pois vivem no mundo da utopia, sendo que esta palavra significa em parte alguma ou em lugar nenhum. Em decorrência disto, são também incapazes de voltar o olho interior do aluno em direção à realidade concreta, para que ele reaja com seu próprio discernimento diante dos dados da experiência. Deste modo, os doutrinados são um entrave ao sentido profundo da educação, e certamente serão motivo de reflexão por parte da CNBB.


