O sentido da vida
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sexta-feira, 02 de novembro de 2001
Maria Lucia Victor Barbosa 
Qual o sentido da vida? Nos seus comentários sobre Leon Tolstói, Max Weber observou que as reflexões daquele escritor giraram sempre em torno da questão de ser ou não a morte um fenômeno dotado de sentido. Segundo Tolstói, no passado o homem morria ''saciado de vida'', porque a vida já lhe dera tudo que podia oferecer. Ao final do seu ciclo orgânico, ''sem enigmas que pudesse resolver'', a morte era sequência natural, já que a vida dera bastante a esse homem.
No caso do homem civilizado seria diferente, porque para este a morte não tem significado. ''E não o tem porque a vida individual do homem civilizado, colocada dentro de um 'progresso' infinito, jamais deveria chegar ao fim; pois há sempre um passo à frente do lugar onde estamos, na marcha do progresso.'' ''E porque a morte não tem significado, a vida civilizada como tal, é sem sentido.''
Depois do ataque terrorista aos Estados Unidos, essas idéias podem constituir um campo fértil para reflexões que põem em xeque valores e crenças. E numa tentativa de prosseguir com esse árduo exercício de pensar, observo que uma parte dos homens da atualidade justifica a vida através da morte. Não porque estejam saciados de vida, mas em função de suas crenças baseadas numa vida posterior, ou de ideologias que oferecem um ideal pelo qual vale a pena viver ou morrer.
Os fundamentalistas islâmicos, por exemplo, reúnem as duas características, religiosa e ideológica. Interessante, porém, é que estes grupos, e outros mais que possuem características apenas revolucionárias, são motivados na base de seus componentes, a maioria pobre, não pelo ''progresso infinito de sua sociedade'', mas pela falta dele.
É evidente que o progresso do mundo globalizado de hoje acaba alcançando mesmo os mais pobres dentre as nações mais pobres, o que traduz os efeitos positivos da globalização, processo que para alguns só traz malefícios. Esses benefícios podem ser claramente percebidos através, principalmente, dos avanços da ciência, da tecnologia, dos meios de comunicação. Por outro lado, o enriquecimento continuado do mundo dito civilizado, que na sociedade de consumo conduz a demandas e aspirações que nunca chegam ao fim, quando não alcançadas por determinada classe social podem se transformar no seio desta no estopim do fanatismo, das revoltas, enfim, da violência, quando surgem líderes capazes de canalizar a insatisfação latente. A ressalva quanto a este tipo de liderança é necessário, porque os pobres em si não são nem violentos, nem fanáticos, nem tão pouco revolucionários.
Estas considerações, por sua vez, indicam o acirramento das tensões mundiais com relação à riqueza e à pobreza, e aos valores e comportamentos de civilizações distintas, depois que ocorreram os atentados aos símbolos de poder econômico e militar dos norte-americanos. E neste cenário que lentamente vai se desenhando, o sentido da vida assume um caráter peculiar à nova etapa histórica. De um lado, está a lógica hedionda do terrorista, para o qual a vida das vítimas não tem o mínimo significado. De outro, os esforços contra o terror, o que reforça o sentido da vida no seu aspecto mais básico, ou seja, o da sobrevivência. E no ato de sobreviver a vida faz sentido porque é estabelecido um ideal comum onde as bandeiras da liberdade e da prosperidade tremulam mais alto. Isso quer dizer, que o significado da existência hoje pode ser o mesmo que o do passado, não no sentido de se morrer saciado de vida, mas porque agora se trava novamente a batalha entre civilização e barbárie. E nesta luta o homem civilizado resgata o sentido do viver.
Como afirmou José Ortega y Gasset, ''civilização é, antes de tudo, vontade de convivência. Somos incivis e bárbaros na medida em que não contamos com os demais. A barbárie é a tendência à dissociação. E assim, todas as épocas bárbaras foram tempos de desagregamento humano, onde pululavam os pequenos grupos separados e hostis. A forma política que representa a maior vontade de convivência é a democracia liberal''.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária. E-mail: [email protected]


