Depois do Carnaval, a Igreja vivencia os dias da Quaresma, como preparação para a festa máxima da cristandade: a Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Neste período de quarenta dias, somos convidados à oração, à penitência e ao jejum. Nos dias de hoje, de forte hedonismo e individualismo, onde prevalece a lógica da produtividade e da eficácia, e também a lógica do lucro e dos prazeres proporcionados pela posse de bens materiais, tem ficado cada vez mais difícil a prática proposta pela Quaresma.
No corre-corre do dia-a-dia, muitos já não conseguem mais pausa necessária para uma interioridade que permita um exame de consciência mais profundo, com revisão de atos e mudança de procedimentos, buscando uma autêntica e permanente conversão. Só através da oração é que temos um contato maior com Deus, adquirindo forças para superar as dificuldades, e ainda alegria para afirmar a esperança, em meio às tantas graças obtidas.
Também na cultura permissiva dos nossos dias, tem desaparecido a noção do pecado entre as pessoas, que se julgam no direito de fazer o que bem entendem, não se importando muito com a moral, desde que obtenham o que desejam. Essa postura dificulta o imprescindível arrependimento dos atos indevidos, impedindo assim que sejamos capazes de uma verdadeira penitência. Só com a humildade é que podemos nos penitenciar de nossos atos, buscando fazer com que evitemos o pecado e não erremos mais.
E, finalmente, em meio à gula dos desejos desmesurados, tem sido difícil vivenciarmos a prática do jejum. Não apenas o jejum da comida e da bebida, mas especialmente o jejum da palavra, da vaidade, do exibicionismo, do que é supérfluo. Hoje, seria muito bom fazermos a experiência do silêncio, quando somos tantas vezes tentados a falar mal de terceiros, a julgar demais as ações alheias, a tirar conclusões precipitadas, enfim, a pensar e falar indevidamente.
Que esta Quaresma, portanto, seja um momento de renovada oportunidade de conversão, para que os nossos corações estejam mais abertos à solidariedade, principalmente em relação aos mais idosos, já que o tema da Campanha da Fraternidade deste ano é justamente a dignidade da pessoa idosa.
Ser cristão é saber que estamos no mundo, mas não somos do mundo. As coisas que estão à nossa volta existem para o nosso aprimoramento pessoal. Não devemos julgá-las como condição indispensável à nossa felicidade. O verdadeiro cristão sabe que o essencial não é o ter, mas o ser. Por isso, a Quaresma deste ano clama para que saibamos conter mais as nossas paixões e desejos, encontrando autocontrole e disciplina que permita fazer com que sejamos capazes de fazer o bem, somente o bem. Oremos também para que a Quaresma de 2003 afaste o mal da guerra, que ameaça pesar sobre todo o mundo. Queremos paz. É assim que estaremos nos preparando para a Páscoa, festa da vitória da vida sobre a morte, vitória do verdadeiro bem.
VALMOR BOLAN é doutor em Sociologia e diretor-geral da Faculdade Editora Nacional em São Caetano do Sul (SP)

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