Hoje, 5 de junho, é o Dia Mundial do Meio Ambiente, um tema que preocupa não apenas os ambientalistas, mas toda a sociedade que pensa. A ONU, preocupada com o modelo de desenvolvimento agressivo à natureza que praticam os ricos e também os pobres, promoveu, em 1992, a 2ª Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento (Eco/92), reunindo delegações de 178 países e presença de 108 chefes de Estado. Constituiu-se no maior evento jamais realizado sobre a face da Terra.
Na oportunidade foi apresentado um conjunto de 115 programas globais para despoluição e realinhamento do Planeta, denominado Agenda 21. Dois programas dessa agenda mereceram destaque especial: as Convenções sobre Mudanças Climáticas e Biodiversidade, ambas rejeitadas pelos EUA, sob a alegação de que sua implementação prejudicaria a produção industrial norte-americana. Ah, bom.
O presidente americano era George Bush (o pai), que não se constrangeu com a crítica de Boutros Ghali, secretário-geral da ONU, de que ‘‘o nível de compromissos dos países não estava compatível com as ameaças enfrentadas pelo planeta’’, enfatizando, que o progresso e a vida já não caminhavam lado a lado. Bush, numa típica atitude de quem reconhece a dívida, mas não paga, declarou: ‘‘Uma importante espécie biológica corre o risco de desaparecer, a consequência do rápido deterioramento das suas condições de vida: o homem.’’
Chegamos ao Dia Mundial do Meio Ambiente, nesta data, verificando que nossos problemas continuam. A pior ameaça ao ambiente está no crescimento anormal da temperatura terrestre, resultado do acúmulo de gases poluentes que aprisionam os raios solares na atmosfera, transformando-a numa espécie de estufa. O principal vilão dessa história é o gás carbônico (CO2) proveniente da queima de combustíveis fósseis. As quase 20 milhões de toneladas de CO2 que a moderna sociedade lança no espaço diariamente, superam o volume que as sociedades da era pré-industrial lançaram na atmosfera durante milhares de anos. Como consequência, a concentração de CO2 atmosférico cresceu 30% na era industrial.
A comunidade científica internacional, no entanto, ainda está insegura quanto a se o atual fenômeno do aquecimento global decorre de um ciclo natural de mudanças climáticas – a exemplo das eras glaciais – ou se desta feita o fenômeno é artificial, provocado pela atividade humana.
É artificial, concordam mais de 1,5 mil cientistas ligados à ONU e alertam sobre a possibilidade de a temperatura terrestre subir até 12ºC nas calotas polares nos próximos 100 anos, o que acarretaria elevação nos níveis dos oceanos e inundação das áreas costeiras, onde vive boa parte da humanidade. Uma catástrofe, cujo ônus seria distribuído igualmente entre todos os habitantes do Planeta, apesar de serem distintas as responsabilidades de cada um. Os norte americanos, por exemplo, sendo menos de 5% da população mundial, respondem por mais de 25% da poluição atmosférica total.
A ONU propõe responsabilidades diferenciadas no Protocolo de Kyoto, documento elaborado em Conferência realizada no Japão em 1997, que fixou o ano 2012 como limite para que os países industrializados reduzam a emissão dos gases causadores do efeito estufa em 5,2% – na média – em relação aos níveis de 1990.
Aos USA correspondeu a cota de 7%, de vez que eles aumentaram em 11% a emissão de CO2 desde a Eco 92 – quase 50% do aumento global de CO2 verificado no período. Realizar esse ajuste custará aos cofres americanos um dispêndio anual aproximado de 100 bilhões de dólares. Parece muito, mas quantos bilhões os USA já ganharam poluindo a atmosfera deles e a nossa?!
Na última rodada de negociações sobre o clima, realizada no ano passado em Haia (Holanda), pretendia-se regulamentar os mecanismos que viabilizariam as metas acordadas em Kyoto, para o que a delegação americana exigiu modificar o Protocolo, incluindo créditos-carbono oriundos de florestas (consideradas sumidouros de CO2) para cumprir parte dos seus compromissos com o documento. Não houve acordo e os USA abandonaram as conversações, não ratificando o protocolo.
George W. Bush (o filho), atual presidente, manifestando a mesma má vontade do pai em consertar o ambiente, teria comentado a FHC, em visita deste à Casa Branca, estar consciente da responsabilidade americana na poluição atmosférica, mas que não hesitaria em poluí-la ainda mais se isso evitasse a recessão em seu país, pois esta provocaria mais danos ao mundo que o aumento da poluição atmosférica que eles causariam para evitá-la.
Yes, Mr. Smoke. Simples e direto. Preservação ambiental é para os outros. O povo americano tem todo o direito de continuar sujando o ar que respiramos, desde que isso lhes proporcione conforto e bem-estar, já que o nosso desenvolvimento é subproduto do desenvolvimento deles. Se eles estiverem bem, nós também poderemos relaxar e gozar. Que se danem nossos netos, bisnetos e gerações subsequentes – se existirem. O importante é o aqui e agora de Bush, que, ademais do referido anteriormente, rejeita o protocolo porque ele exime 80% da população mundial do compromisso de reduzir a emissão de CO2.
É verdade, senhor presidente. Só que esses 80% de ‘‘excluídos’’, são responsáveis por menos poluição atmosférica que os 5% de americanos que Vossa Excelência governa. Ouça o que o presidente Fidel Castro gostaria de lhe dizer a esse respeito: ‘‘As sociedades de consumo são as maiores responsáveis pela atroz destruição do meio ambiente. Elas envenenaram os rios e os mares, contaminaram o ar e debilitaram a camada de ozônio. Não é possível que se culpe dessa destruição os países do Terceiro Mundo, ontem colônias e hoje nações saqueadas e exploradas, produto de uma ordem econômica injusta.’’
Mesmo reconhecendo que a falta de consenso para a assinatura do Protocolo de Kyoto não está nas bases científicas equivocadas, mas no custo econômico que ninguém quer assumir, urge avançar mais nas pesquisas para contrapor dados científicos mais sólidos às dúvidas dos ‘‘sujismundos’’, pois parecem racionais seus argumentos de que o custo é demasiadamente alto, para uma base científica ainda questionável. Uma perguntinha: os EUA ainda têm moral para impor ridículas restrições ambientais à entrada de produtos brasileiros em seu território?
- AMÉLIO DALL’AGNOL é engenheiro agrônomo em Londrina
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