O senador e o agricultor
O senador e
o agricultor
Cláudio Slaviero
Era uma vez, num país longínquo, Moldania talvez (onde as ligações telefônicas são mais baratas), existia um agricultor muito pobre, que vivia abaixo da linha da pobreza, mas que era muito honrado.
Este agricultor tinha uma família que dependia dele para viver e sua esposa estava doente. Apesar do completo estado de pobreza, eles viviam ao redor da capital da República, onde a vida de luxo e esbanjamento era total.
O país inteiro tinha contrastes enormes, pois era um imenso território e difícil de governar. Por outro lado, era um país abençoado por Deus, pois não tinha catástrofes naturais, como furacões, terremotos e vulcões, e ainda desfrutava de um clima tropical com estações bem definidas.
Corria uma anedota neste país, maldosa por sinal, de que a terra era boa de se viver, mas seus governantes eram de amargar (ainda bem que é na Moldania).
Mas, voltemos ao agricultor! Pelo fato de sua mulher estar doente, ele saiu em busca de remédio para aliviar sua dor. Como era muito pobre e não tinha dinheiro para comprar remédios na farmácia, que nos últimos dias haviam aumentado 67%, ele foi ao bosque mais próximo e raspou a casca de uma árvore para fazer um chá antitérmico para sua mulher.
Apesar do excelente clima naquele país, existiam coisas de arrepiar o cabelo, principalmente na área de legislação e regulamentação. E o pobre agricultor foi preso, acusado de crime ambiental, pois estava destruindo uma árvore nativa ao tirar parte de sua casca. Sua pena seria de cinco anos enjaulado com criminosos comuns.
Se não fosse a mobilização da imprensa e da opinião pública com o absurdo daquela situação, o pobre homem, com certeza, passaria seus dias na prisão. Afinal de contas, a lei só vale para os mais indefesos, que não podem pagar caros advogados que impetram habeas- corpus e utilizam de todos as possibilidades processuais e legais para livrar criminosos da prisão.
Aquele homem ficou tão desestruturado e envergonhado que não tinha mais cara de enfrentar seus amigos, pois achariam que ele não era mais de confiança.
Perto dali, na capital federal, onde era tudo oba-oba, existia um senador da República que tinha sido acusado de desviar uma quantia enorme de dinheiro público em uma obra superfaturada (um caso isolado, pois isso nunca acontecia naquele país).
Ele o senador dizia que era tudo perseguição política. Mas era roubo mesmo, pois encontraram nas contas de suas empresas parte do dinheiro desviado daquela obra.
Para difamar ainda mais tão nobre cavalheiro, as más línguas diziam também que grande parte da fortuna dele havia sido conquistada através de negócios escusos e mal explicados e que isso era praxe naquela capital. Com certeza, outra maldade sem fundamento.
O senador foi preso, mas ganhou liberdade em pouco tempo. Não porque a opinião pública havia se mobilizado, como no caso do agricultor, mas porque as leis daquele país eram inexplicáveis.
De fato! Naquele país prendia-se quem caçava animais ou roubava galinhas para matar a fome, mas se deixava solto aquele que cometia as maiores roubalheiras contra o Estado, só por carregar um pseudo distintivo de autoridade.
Mas como nem tudo estava perdido naquele país, nos últimos tempos os próprios governantes, que não aguentavam mais tamanho abuso, começaram a punir seus próprios parlamentares, a fim de tentar moralizar um pouco a sociedade. Até impicharam um presidente e cassaram o mandato do dito cujo senador.
Infelizmente, nem todas as histórias têm final feliz naquele país. Os comprometidos com a justiça, a igualdade e a verdade ainda são minoria. Muita corrupção ainda suja os corredores do poder e ninguém vê, ninguém escuta, ninguém fala.
Moral da história: quem mandou votar errado? Na próxima vez, pense melhor.
- CLÁUDIO SLAVIERO é empresário em Curitiba e vice-presidente da Associação Comercial do Paraná





