‘‘Ninguém pode desfrutar das coisas sagradas enquanto não estiver limpo de corpo e de espírito.’’ A lição do Levítico, da Bíblia sagrada, quer significar que ninguém pode almejar o paraíso se não for puro. Os impuros e os pecadores hão de pagar os seus pecados no purgatório, se não forem condenados diretamente ao fogo do inferno.
Ora, o arrependimento do senador José Roberto Arruda, ao se confessar culpado no episódio de ocultamento da violação do painel do Senado Federal, não lhe dá o direito de reivindicar passagem direta para o céu. A confissão, se denota certa tentativa de recuperar a dignidade perdida, não redime a culpa. Fosse assim, Fernandinho Beira-Mar, o megatraficante, e o juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, pivô da roubalheira em torno do prédio do TRT em São Paulo, poderiam simplesmente demonstrar arrependimento e voltarem para o aconchego das fortunas amealhadas.
Ademais, o que está em questão é a teatralização política: em que discurso acreditar? Naquele em que o senador Arruda usa até a virulência da imagem escatológica de vísceras, para dizer que não tinha conhecimento de nada, ou o discurso choroso em que pede perdão aos filhos, aos amigos, a Brasília, ao Senado e ao Brasil? Será que este lamento não faz parte da mesma encenação do primeiro discurso? Será que o reconhecimento da culpa não é apenas tática política para evitar a perda do mandato?
Como o choro faz parte das estratégias de enganação, em nosso País, é bem possível que as lágrimas senatoriais façam o efeito de comover os companheiros de Casa e acabem salvando o mandato do senador. Tratar-se-á, nesse caso, da mais gigantesca pizza com sobremesa de marmelada que já se ofereceu na esfera do Congresso.
O que está em jogo não é apenas a imagem devastada dos atores políticos. Está em jogo a própria credibilidade da instituição parlamentar, atingida por um dos mais impactantes petardos da nossa história política contemporânea. Afinal de contas, rompeu-se um dos mais vigorosos eixos da representação política: o decoro parlamentar, atingido pela violação de um processo de votação.
Não adianta, agora, repartir as culpas em fatias maiores, médias e pequenas. O saudoso Ulysses Guimarães já dizia: ‘‘Uma pessoa 99% honesta é 100% desonesta, porque não existe honestidade relativa.’’ Ou se é honesto ou não. É como gravidez. Portanto, todos os participantes do episódio são responsáveis, incluindo aqueles que receberam a informação a respeito da violação do painel. Se alguém teve acesso à esta informação, deveria ter colocado a boca no trombone, seja ele de qualquer partido.
O que poderá acontecer? Pelo andar da carruagem, as coisas caminham para um processo de acomodação crítica, ou seja, tentativa de abafamento com alta tensão. Isso significa que a suspensão temporária do mandato – um mês, três meses – poderá ser a solução engendrada pelos bombeiros de plantão.
A cassação só será conseguida pela pressão monumental da opinião púbica. Esta reage de acordo com as circunstâncias e o conhecimento dos fatos. Caso os argumentos do senador Antonio Carlos Magalhães, que depôs ontem, não consigam ser convincentes, como parece não terem sidas as razões avocadas pelo senador Arruda, a pressão se adensará.
Mesmo assim, pesará o perfil de ACM, com sua vida política, seu poderio, sua influência sobre uma grande bancada parlamentar e, sobretudo, com o poder de fogo que ainda detém, pelo fato de ser um dos maiores poços de informação de bastidor do País. Se daqui para a frente ACM contar tudo o que sabe, poderá desestabilizar o quadro político-governamental.
Se os dois senadores forem punidos, o corpo do Senado deverá ampliar o processo de sanção, atingindo, de alguma forma, o presidente do Senado, Jader Barbalho, que está também sob a mira de denúncias. Nesse caso, seria a solução salomônica para atenuar as críticas da opinião pública.
Essa consequência será mais aceita pela sociedade que um arquivamento do processo. Mesmo a punição sob forma de advertência receberá repulsa. Ou seja, desta feita, será muito difícil jogar a sujeira para baixo do tapete. O Senado terá de cortar a própria carne para saborear a sensação de aplauso da sociedade. Haverá coragem para tanto?
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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