O sem-diploma
Analistas políticos já avisavam: o segundo turno das eleições presidenciais começaria ainda no primeiro. Dito e feito, para usar uma expressão cara aos marqueteiros tucanos. Lá vem José Serra, antecipando a arma reservada para a batalha final e atacando Luiz Inácio Lula da Silva de um ''defeito grave'': o petista não tem diploma de curso superior.
Em um país acostumado a cultuar a imagem mistificada do ''doutor'', é possível que funcione. Mas a estratégia embute um risco inerente. A grande maioria dos brasileiros não teve, como Lula, a chance de ocupar um banco universitário. Para o tiro sair pela culatra, basta que esses ''sem-diplomas'' descartem o preconceito e percebam que os letrados instalados no Poder nas últimas décadas têm governado para uma pequena minoria.
Claro que, em determinadas funções, o diploma universitário e as habilidades técnicas são imprescindíveis. Mas não seria possível reunir em um só homem todos os conhecimentos para uma missão complexa como dirigir um país. Se o presidente for médico, lhe faltarão conhecimentos em finanças, engenharia, educação. Se for economista, certamente não terá domínio em matéria de sa© úde pública. Esse presidente polivalente, que tudo sabe e tudo pode, só existe na propaganda eleitoral.
Ao chefe do governo, é indispensável ter conhecimento dos problemas do conjunto da sociedade, sensibilidade para traçar prioridades e coragem para dizer ''não'' a propostas indecentes. Claro que deve, para levar adiante a empreitada, cercar-se de profissionais preparados em todas as áreas de atividade para municiá-lo de informações e idéias.
A vida do brasileiro não melhorou sob o comando de um sociólogo de esquerda fluente em francês. Talvez o País queira agora e as pesquisas que sustentam Lula na liderança podem estar dizendo isso apenas um líder que conheça a aflição de ser demitido, que tenha experimentado a impotência às portas de um hospital superlotado, que saiba o que significa passar a noite na frente da escola pública para conseguir vaga para o filho. Um presidente para consumo interno.
Ruth Meira





