O segundo tempo de Lerner
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de março de 1997
René Ruschel 
A partir deste ano, o governador Jaime Lerner iniciou a segunda metade de seu governo. Trata-se de um período extremamente delicado na vida de qualquer político, principalmente dos que ocupam cargos executivos, uma vez que os interesses daqueles que o apóiam podem mudar conforme as conveniências pessoais e momentâneas. A chamada base de sustentação política, no caso deputados federais, estaduais, prefeitos, vereadores e senadores, raciocina muito mais em função de sua própria sobrevivência nas próximas eleições que propriamente da esfera de governo ao qual supostamente está aliado. Daí que, desviar-se do curso inicial para outros caminhos é apenas uma questão de avaliar o momento adequado.
Apesar de não ter deixado o barco e argumentar que deseja apenas mudá-lo de rumo, o prefeito de Londrina, Antonio Belinati, bateu de frente com o governador Jaime Lerner ao cobrar uma maior participação político-administrativa dos chamados nortistas em seu governo. Na verdade, Belinati sente-se desprestigiado por Lerner, mesmo tendo sua mulher na condição de vice-governadora e quer ocupar um espaço que entende ser merecedor na condição de prefeito da segunda cidade mais importante do Estado. Belinati, sem nada falar, quer lembrar ao governador que, com exceção de Londrina e assim mesmo a duras penas, todos os candidatos apoiados pelo Palácio Iguaçu nas principais cidades do Paraná foram derrotados. A exceção fica justamente pela vitória em Curitiba; daí muitos o chamarem de governador de Curitiba, aliás, este discurso de Belinati é tão oposicionista, que quem deu os primeiros acordes foi justamente seu adversário nas últimas eleições, o deputado tucano Luiz Carlos Hauly, que acusou Lerner de privilegiar Curitiba em detrimento de Londrina.
Outro ponto fundamental questionado por Belinati é a não-participação de políticos nortistas no secretariado do governo. A infeliz declaração do governador para argumentar sua escolha foi que ela é pautada pelo critério de competência, numa alusão passível de compreendão de que não há pés-vemelhos dotados deste atributo.
Passados os dois primeiros anos a administração Lerner fatalmente viverá períodos de tuburlências à medida que as eleições de 98 se aproximam. Vale ressaltar que a aprovação da reeleição é um grande triunfo que o governador terá em mãos, principalmente se passar em segunda votação no Senado a não desincompatibilização dos candidatos ao mesmo cargo, uma vez que não podemos ser ingênuos a ponto de crer que a máquina administrativa não será posta a serviço do mandatário de plantão. No entanto, a engenharia política requer mais do que simplesmente as benesses da máquina administrativa.
Apesar das negativas veementes o prefeito Antonio Belinati é o primeiro dentro das hostes do poder a desafiar o governador Jaime Lerner. A questão é saber se tudo não passa de um mero balão de ensaio para ocupar espaços e depois acabar em pizza ou de fato a luta surda em busca do palácio Iguaçu começou bem mais cedo do que imaginavam seus atuais inquilinos.
- RENÉ RUSCHEL é economista.


