O secundário anulando o principal
Pequena nota publicada quinta-feira na coluna ''Informe'', deste Jornal, mostra que também a invasão de terras passou a figurar entre as questões intocáveis, tratadas com extrema delicadeza pelos organismos de segurança, pelo governo e pelas instituições que se rotulam defensoras das causas sociais. Informa a nota que no sudoeste de São Paulo sem-terras invadiram uma fazenda, renderam trabalhadores, apreenderam armas dos proprietários, chamaram a Polícia Federal para denunciar a 'operação-desarmamento' e entregar-lhe o 'arsenal bélico'. Os agentes atenderam ao chamado e iniciaram inquérito, e quem imagina que foi para apurar o delito da invasão enganou-se, porque foi para saber da origem das armas. Seria apenas cômico o fato, se contado como anedota, mas se trata de algo real. O assalto à propriedade alheia, a violência praticada contra os trabalhadores, a apropriação de bens da propriedade, nada disto configurou crime aos olhos dos agentes policiais e sim a presença dessas armas na fazenda. Ter ao menos uma espingarda, ou um revólver, em propriedade rural, é coisa comum quanto a existência de cavalos de montaria, de muitos cachorros e de fumo de corda mais um componente de folclore que uma ameaça para alguém. Mas, num tempo em que o poder governamental instalado consagra o ataque à propriedade alheia como ''movimento social'' e cultua a repulsão ao proprietário rural, pelo ''delito'' de ter um quinhão de terra, coisas surrealistas como esta da fazenda paulista acontecem. Os valores consagrados pela lei invertem-se e passa a triunfar a ilegalidade, e com respaldo oficial. O episódio narrado revela como o secundário ganha relevância em detrimento do principal, porque se a Polícia Federal tinha que agir seria contra os que haviam acabado de perpetrar um crime tipificado como grave, que foi o assalto a uma propriedade alheia e a rendição de trabalhadores. Mais estarrecedor que o fato em si mesmo é a mentalidade prevalecente de que invasão de terra deixou de ser um ato ilícito, porque convertido em ''movimento social'' e, assim, com o pressuposto de imune às normas da lei. Por conta dessa ''salvaguarda'' as lideranças dos sem-terra conduzem suas legiões à prática de irregularidades, encontrando para isso o caminho livre e com a segurança de que nada as molestará.





