Em 1569, o vice-rei do Peru Francisco de Toledo deu uma demonstração concreta e exemplificou na prática o que aconteceria aos indivíduos perniciosos à autoridade real e eclesiástica. Ele mandou executar o príncipe inca Tupac Amaru, que não aceitava nem a fé católica nem a Coroa Espanhola. Muito tempo depois, um descendente dos incas se fez chamar Tupac Amaru, numa homenagem àquele que foi executado por Francisco de Toledo. Em 1781 ele se rebelou contra os criollos peruanos e sitiou Cuzco. Tupac Amaru II decretou a liberdade dos escravos, aboliu impostos e todas as formas de abuso com relação à mão-de-obra indígena. Aos que o seguiam, prometeu, caso tombassem mortos no fragor da batalha, a ressurreição para que pudessem reaver tudo o que houvessem perdido. Depois de muitas lutas, o messiânico guerreiro foi traído, preso, supliciado em praça pública junto com seus familiares e morto, sendo recomendada a extinção de sua descendência até o quarto grau.
O Tupac Amaru III, ou moderno, digamos assim, chama-se Victor Polay Campos. Foi ele que fundou em 1982 o Movimento Revolucionário Tupac Amaru (MRTA). Se foi o nome do príncipe inca morto em 1569 que o inspirou, ou se foi o Tupac Amaru II que prometia a ressurreição aos seus seguidores que insuflou seus brios revolucionários, é difícil saber, mas o que de concreto se conhece é que Polay Campos objetiva tomar o poder no Peru pela força e converter o país numa república socialista.
O MRTA conseguiu tornar-se o grande opositor do Sendero Luminoso, grupo maoísta maior e mais antigo. Entretanto, a diferença básica entre ambos consistia no fato de que o MRTA promovia suas ações terroristas em centros urbanos, enquanto o Sendero preferia concentrar suas atividades no interior. Desse modo, Polay Campos e seu bando se especializaram em sequestros de políticos e empresários, assaltos a bancos e ‘‘ações propagandísticas’’ que incluíam captura de jornalistas ou invasão de agências de notícias internacionais com o fito de obrigar pela força profissionais da imprensa a difundir lemas socialistas e rebeldes. Diga-se, porém, de passagem, que tanto o MRTA quanto o Sendero Luminoso tinham em comum a proteção aos cultivadores clandestinos de coca, e as ações sanguinárias que espalhavam o terror entre as populações camponesas.
O ‘‘Tupac Amaru IV’’, foi Néstor Cerpa Cartolini, chamado romanticamente de ‘Comandante Evaristo’. Foi ele quem ocupou o lugar de Victor Campos quando este foi preso em 1992. Cerpa começou sua carreira como líder sindical. Posteriormente abraçou a luta armada, aderindo ao Sendero Luminoso, mas acabou integrando-se ao MRTA. E foi o Comandante Evaristo quem liderou o maior sequestro coletivo da América Latina (126 dias), realizado na residência do embaixador japonês em Lima. Estava sobretudo interessado em libertar sua mulher Nancy Gilvonio, condenada à prisão perpétua, e que se encontrava entre os outros 400 guerrilheiros presos do MRTA. Imbuídos deste propósito, o grupo terrorista estava disposto a morrer e a matar todos os 72 reféns, caso o presidente Fujimori ordenasse uma invasão de resgate.
A operação denominada Chavín de Huantar, e ordenada pelo presidente, ocorreu no dia 22 deste, e foi um sucesso impressionante. Apenas um dos reféns faleceu em resultado de uma parada cardíaca. Morreram também dois militares. Quanto aos 14 integrantes do MRTA, encontraram o destino que eles mesmos procuraram, ou seja, a morte. Resumindo, como escreveu o jornalista Moisés Rabinovici em ‘‘O Estado de S. Paulo’’: ‘‘A operação Chavín de Huantar, somando o que dizem isoladamente os peruanos, teve a ousadia israelense, a organização alemã, a pontualidade britânica, a paciência japonesa e a alta tecnologia americana’’. Faltou Rabinovici dizer: a coragem e a determinação de Alberto Fujimori.
Acrescente-se ainda trecho de análise de Gabriel Escobar em ‘‘The Washington Post’’: ‘‘Ao entrar na residência do embaixador japonês, o presidente Alberto Fujimori tinha o ar de um general vitorioso. Ele completou sua transformação de reitor anônimo de uma escola superior de agricultura em um dos peruanos mais influentes deste século. O que quer que seus críticos digam no futuro - e seus quase sete anos no governo fornecem muita munição aos detratores - Fujimori pode vangloriar-se de ter salvo o país não uma vez nem duas, mas três: a primeira ao fazer reformas que trouxeram estabilidade, embora ainda não tenham trazido prosperidade, para os peruanos; a segunda, ao desfechar um golpe quase mortal contra a guerrilha do Sendero Luminoso e do Tupac Amaru; e, finalmente, pondo fim, na terça-feira, a uma crise que convertera todos os peruanos, de um modo ou de outro, em reféns durante 126 dias’’.
É possível que Alberto Fujimori, esse descendente de japoneses, surja agora não apenas diante de seu povo, mas do mundo, como uma espécie de samurai vitorioso. Um samurai peruano que intuiu às mil maravilhas a máxima de Nicolau Maquiavel: ‘‘Pois a força é justa quando necessária’’.

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