O samba começa aos 70
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terça-feira, 28 de janeiro de 1997
José Nêumanne 
Você, amigo, que não perde um show do Raça Negra, desculpe-me, mas perdeu uma bela oportunidade de conhecer um sambista de verdade. Sim, pois o mineiro Noite Ilustrada esteve em São Paulo. Quem usufruiu da felicidade de ouvi-lo cantar Nelson Cavaquinho e Ataulfo Alves, Dorival Caymmi e Paulo Vanzolini jamais esquecerá a hora de alegria e encantamento, proporcionada por ele no espetáculo Nos bares da vida, que fez parte da programação do Aberto para balanço - 50 anos para contar, comemoração do cinquentenário do SESC.
Quanto a você, que prefere Luciano e Zezé de Camargo, e que, por isso mesmo, deve ter perdido a noção daquele ritmo bem brasileiro, cultuado por gênios como o paraibano Jackson do Pandeiro, no passado, e o mineiro João Bosco, no presente, sua chance foi a de ver e ouvir Miltinho. Esse é o carioca por excelência. Seu estilo é incomparável e inimitável - não herdou praticamente nada de ninguém nem deixa herdeiros à vista. Na mesma noite ilustrada pelo sambista acima referido, o pandeirista de origem - que participou do conjunto Quatro Ases e um Coringa e foi crooner da Orquestra Tabajara de Severino Araújo - mostrou uma arte que domina como ninguém, a do breque.
Você vai perguntar por que destacar Noite Ilustrada e Miltinho num espetáculo que teve como ponto máximo a possivelmente definitiva despedida de Silvio Caldas, único sobrevivente de uma geração de cantores geniais como Orlando Silva e Chico Alves. Realmente, quem tiver o mínimo de conhecimento da trajetória da chamada Música Popular Brasileira vai se emocionar às lágrimas, diante da imagem do velho seresteiro regendo o coral do público na rememoração de antigas marchinhas de carnaval.
Além dos seresteiros, poderão queixar-se também os boêmios nostálgicos que tiveram uma oportunidade rara de relembrar porres inesquecíveis. Pois entre um e outro show na Fábrica do SESC na Pompéia se apresentou Doris Monteiro. Serão queixas razoáveis, pois, aos 62 anos, ela continua com aquela voz sensual, que excitou a imaginação dos rapazes autorizados a beber nos Anos Dourados (50) e nos Anos Rebeldes (60).
E a televisão,
hein? O que é que
faz que não ouve
essa gente?
A explicação começa pela exclusão. O show de Silvio Caldas é aquele momento único e irrepetível, uma imagem para ser guardada. O de Doris perdeu muito de sua força pela excessiva tagarelice. Nem mesmo os boêmios mais saudosos iam perdoá-la por ter deixado de cantar pelo menos mais três antigos sucessos da dor-de-cotovelo para contar detalhes de sua adolescência ou, o que foi pior, piadas sem graça nenhuma sobre as proximidades fonéticas entre palavras gentis em japonês e palavrões em português. Ainda é tempo de algum amigo contar para Doris que ela continua sendo nossa Julie London. Jamais será uma Dercy Gonçalves recauchutada.
Mas é preciso voltar a Noite Ilustrada e Miltinho. Ao contrário de Doris, os dois, ambos aos 69 anos de idade, ainda têm, apesar do imerecido ostracismo em que megulharam nos últimos anos, um domínio absoluto do ritmo de um espetáculo musical e do palco. Muito elegante, fisicamente inteiro, sósia do Rei Pelé, o criador de Volta por Cima reduz sua conversa ao mínimo, demonstrando consciência de que mantém a forma exuberante, seja na qualidade vocal, seja no estilo de cantar, como se estivesse em início de carreira. Sua prosa é econômica e, talvez até por isso, interessante. O intérprete de Palhaçada vai além e consegue contar seus causos como se estivesse cantando seus sucessos, todos lembrados, verso a verso, pelo público. Só Luiz Lua Gonzaga, o Rei do Baião, conseguia essa proeza e isso não é pouco.
Quem ouviu a interpretação de Só Louco, o clássico samba de Wilson Batista, ou a de Poema do Adeus, do inesgotável lírico Luiz Antônio, sabe que cantores como Noite Ilustrada e Miltinho não podem ficar fora do mercado fonográfico como estão. Mesmo sendo rica, a Música Popular Brasileira não pode se dar ao luxo de manter dois intérpretes como esses dois em silêncio absoluto e sem espaço, voz nem vez nos meios de comunicação. O samba também começa aos 70.
Desde já, Zuza Homem de Mello, um cara único, como foi definito por Erasmo Carlos na noite seguinte do projeto (Jovens tardes de domingo), está intimado a imaginar a produção de discos em que a excepcional forma vocal desses quase sententões seja exposta ao público sem opções de nossos dias. O produtor do Aberto para balanço pode fazer isso, porque o cara único foi muito bem explicado pelo Tremendão, ele é um dos raros críticos e produtores do Brasil sem preconceito nenhum e que mantém o ouvido aberto (e alerta) para todas as tendências e as mais variadas manifestações. Por isso mesmo, trouxe de volta Noite Ilustrada e Miltinho, como tem apostado no sucesso de um talento como Chico César, que, aliás, estará encerrando o espetáculo Parabolicamarás e todo o projeto, no domingo.
E a televisão, hein? O que é que faz que não ouve essa gente?


