Um leitor Carlos Tanuri, de Londrina me questiona se há alguma maneira da sociedade controlar as ações do Congresso Nacional. A razão da pergunta está ligada ao fato dos deputados federais terem elevado seus salários em um reajuste de 50%. Como um atento observador da vida nacional, Tanuri afirma em seu e-mail que ''somos um bando de ingênuos porque acreditamos em políticos''. Argumenta ainda que, quando se trata do reajuste do salário mínimo, ''eles'' discutem dias ou mesmo semanas a fio para decidir se somos merecedores em ganhar um abono entre 5 e 20% algo como R$ 11,00 e R$ 40,00. No caso de legislar em causa própria, o aumento foi superior a R$ 4.000,00 e tudo ficou praticamente acordado num único dia. E termina perguntando se ''com Lula as coisas serão diferente''.
O desabafo certamente não é uma voz isolada. Exceto os parlamentares beneficiados, do Congresso às Câmaras de Vereadores, a medida foi sem dúvida um acinte à Nação. Como não bastasse o gesto, alguns congressistas ousaram ainda justificar o benefício sem a menor desfaçatez. Roberto Jefferson, petebista do Rio de Janeiro e que um dia liderou a tropa de choque na defesa intransigente de Collor de Mello, foi incisivo e direto: ''ninguém precisa mais fazer acordo com traficante, afinal, com um salário desses, quem for pego fazendo isso tem que ser cassado''.
Sem dúvida que não se pode generalizar a classe política, afinal, como em todos os setores da sociedade, há nela desde ilibados cidadãos a meliantes da mais alta periculosidade. Mas em se tratando de homens que foram eleitos pelo voto popular para decidir por mais de 175 milhões de brasileiros, o que já era preocupante começa a ficar insustentável. Se os argumentos expostos pelos nobres parlamentares são válidos aos deputados, nada impede que o traficante Fernandinho Beira-Mar possa também arguir na Justiça que inciou sua brilhante carreira no mundo do crime simplesmente porque seus proventos, à época, eram reduzidos. Com este álibi, tanto ele como seus parceiros do submundo da marginalidade estariam perdoados, além dos deputados, é claro, afinal, a lei deve ser igual para todos.
A única regra infalível para controlar e expurgar os canalhas da vida pública é através do voto. Até mesmo por serem poderes distintos, afirmar que ''com Lula as coisa serão diferentes'' é uma aposta arriscada. A prática usual no Congresso Nacional, como esta do aumento dos vencimentos dos deputados, tem demostrado que os interesses do povão são mera retórica de campanha. Daí fica difícil convencer homens e mulheres de bem que a solução está em cada um de nós. Se acreditar em políticos chega a ser ''ingenuidade'', deixar de crer na democracia é o maior de todos os riscos. O governo do presidente Lula pode ser um referencial para mostrar que é possível administrar com ética e seriedade. Aliás, na verdade, é o mínimo que dele se espera.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

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