Os cientistas sociais vão perder um bom tempo no próximo milênio para definir o homem deste final de século. Alguns já defendem hoje que vivemos a pós-modernidade e, portanto, o advento de um novo homem - desde os tempos dos sofistas não se ouvia tanta besteira para se justificar, numa lógica cartesiana tacanha, o homem e o seu tempo. Admitindo ou não os conceitos decorrentes desta tese controvertida nos meios acadêmicos, o fato é que não se pode desprezar a nossa crescente relação com o inútil.
Neste tempo medonho, somos a ilha cercada de inutilidades e futilidades. Tudo é feito para o prazer momentâneo, para o uso único e descartável. Há uns dois anos, a mais insólita dupla resolveu provar empiricamente o que aqui escrevo. Já de madrugada, o artista plástico Cláudio Cambé estava saindo de um bar em Curitiba. Noite fria, chuva e vento. Antes de ganhar a calçada, Cambé foi abordado pelo poeta Baptista de Pilar. Baptista estava encharcado de corpo e alma. O corpo pela água gelada da chuva e a alma pelo álcool de dezenas de ‘‘martelos’’ de cachaça. Cambé também estava alto.
A cena que se seguiu nem Górki poderia ter imaginado. Baptista, como sempre, estava sem dinheiro para se hospedar nos pulgueiros. A última moedinha tinha ficado no bar em que ele acabara de ser expulso. O poeta pediu para dormir na casa do pintor. Cambé disse que aceitaria, desde que Baptista participasse de um pequeno exercício surreal. Do lado, em frente a uma construção havia um saco cheio de caliça.
- Este é o saco da inutilidade! - disse Cambé - e você vai carregá-lo até a gente chegar em casa (na realidade, um apartamento, distante uns 3 km do local onde eles estavam).
Baptista hesitou um pouco antes de aceitar a proposta, mas a idéia de ter que dormir na rua naquela madrugada fria e com chuva não era nada agradável. Baptista cedeu. Os dois desceram a rua.
Antes de vencerem a primeira quadra, Baptista já dava sinais de cansaço. A roupa do poeta, além de molhada, estava agora toda manchada com o barro misturado aos restos de material de construção contidos no saco de estopa.
- Baptista, eu sei que carregar o saco da inutilidade é uma coisa difícil e pesada, por isso vou lhe ajudar. Eu o carrego uma quadra e você outra, e assim por diante - propôs Cambé.
Aos tropeções, o pintor e o poeta percorreram as próximos quarteirões. Chegaram ao apartamento, abandonaram o saco e, exaustos, dormiram na sala sem ao menos trocar a roupa toda enlameada. No outro dia, além da dor de cabeça, restou a dor nas costas.
Baptista escreve hoje versos econômicos, sem exageros e sem palavras inúteis e Cambé prende-se a um traço não menos econômico e preciso. A inutilidade, para os dois, ficou abandonada na rua, naquela noite de frio e chuva de Curitiba.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da ‘‘Folha’’

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