O RITMO DA VEZ - Funk faz das mulheres meros objetos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Invenção 100% carioca, oriunda das periferias, o funk expande a cada dia seu habitat e ganha as paradas de sucesso. Com letras que remetem ao sexo, em que ''cachorras'' dizem beijar ''o teu marido'', e mulheres em trajes diminutos fazem coreografias que vez sim, vez também beiram o ginecológico, o ritmo definitivamente não está para marola. Veio como tsunami e faz, inclusive, crianças ''surfarem'' em suas ondas.
Para a psicóloga e sexóloga Carla Cecarelllo, presidente da Associação Brasileira de Sexualidade (ABS) e coordenadora do Projeto AmbSex (Ambulatório da Sexualidade), o saldo de tamanha exposição entre crianças e jovens é a erotização. Em entrevista à FOLHA, a psicóloga cobra uma postura mais participativa dos pais que, segundo ela, não podem ''simplesmente pôr uma venda sobre os olhos'' e condena a postura adotada por muitas intérpretes que, segundo ela, remetem a uma submissão diferente da época de nossas avós, mas que igualmente rebaixa a mulher.
Que conteúdo trazem as letras das músicas funk?
As músicas, e especialmente as de funk, acabam traduzindo um pouco a realidade vivenciada pelas pessoas em seu habitat. O funk é um movimento que surgiu da periferia e traz, em suas músicas, a visão que os homens têm das mulheres, que as mulheres têm dos homens e da relação entre ambos. O que infelizmente percebemos é que a maioria dos sucessos do funk coloca a mulher numa posição de muita exposição, embora muitas vezes essas mulheres se sintam no comando, como se estivessem ''usando'' o homem.
E a situação não é essa? Há algumas músicas que trazem frases como ''eu tô beijando o seu marido''...
Não. Ao quererem mostrar que ''podem'' mais que o homem, as mulheres expõem o corpo de forma a insinuar que homem pode usar disso. Essa busca desenfreada de um suposto comando, em que é a mulher quem seduz, quem faz e acontece, resulta na submissão. É uma submissão diferente da época de nossas avós, mas que igualmente rebaixa a mulher.
O que músicas cantadas por ''Gaiolas das Popozudas'', com coreografias de mulheres-frutas, trazem como saldo entre as novas gerações?
Se uma pessoa ouvir vez ou outra esse tipo de música, não há por que ela ser influenciada. Mas, se essa música faz parte do universo de uma criança, em sua comunidade, é natural que, quando jovem, essa pessoa prefira o funk à MPB. Isso tudo depende do grau de exposição. Uma vez expostas, as consequências são muito negativas. Nos bailes funk, hoje, o sexo acontece de maneira desenfreada - não que seja exclusividade dos bailes. Há uma tal de ''carreirinha'' em que as meninas ficam apoiadas em uma parede, no fundo do salão, sem calcinha, numa posição apropriada para a penetração peniana, ou seja, os rapazes chegam, penetram e as frequentadoras nem sabem com quem mantiveram relações. Gravidez, doenças sexualmente transmissíveis, entre tantos outros perigos, acabam tendo vez à medida que as músicas e suas letras fervilham os hormônios das pessoas, que não hesitam em expor seus corpos.
Defensores e intérpretes dos hits funk dizem que essa exposição é idêntica à adotada por muitas divas pop...
Realmente, a banalização do corpo da mulher não é exclusividade das cantoras de funk. Muitas cantoras americanas consagradas, como Beyoncé, Mariah Carey, Britney Spears, entre tantas outras, de vez em ''sempre'' põem a barriga de fora e cantam letras de duplo sentido. Com isso, as jovens acham normal andar sem calcinha - como muitas das estrelas já se deixaram fotografar -, ser agressivas, entre tantos outros maus exemplos. Não se trata de uma característica do funk. Muitos hasteiam a bandeira contra as letras das músicas funk porque esse gênero é uma realidade brasileira.
Na posição dos pais de filhos adeptos às letras e melodias, como coibir sem cercear a liberdade?
É impossível fazer vista grossa à realidade. Seria muito importante se os pais respirassem fundo, engolissem o orgulho e ouvissem junto com seus filhos o que essas letras trazem. Por que não interpretar o que essa música traz ao jovem? Os pais têm que participar dessa conversa. É fundamental esse acompanhamento, pois faz parte da realidade de seus filhos, principalmente porque em tempos em que os jovens perdem a virgindade aos 15 anos, em média, e os hormônios estão à flor da pele, o assunto ''sexo'' está aí. Nesse sentido, acredito que é possível permitir aos filhos ir ao baile funk, mas que esses jovens saibam que não precisam participar de tudo que se sucede lá.


