O RISCO DE SER HERÓI
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de novembro de 2002
Andréa Lombardo<br> Equipe da Folha 
Curitiba Não há estatísticas oficiais sobre o número de vítimas, este ano, que reagiram a assaltos em Curitiba e região metropolitana, onde os índices de criminalidade são cada vez mais preocupantes. Mas os vários casos bem ou mal sucedidos registrados entre a última semana de outubro e início deste mês, levam a uma reflexão: as pessoas estariam se sentindo desprotegidas, cansadas da violência e decididas a fazer Justiça por conta própria?
A impulsão de bancar o super-herói durante um assalto, no entanto, pode ser um negócio arriscado. Dados divulgados na internet pela Organização Não Governamental (Ong) Desarme, de combate à violência, apontam que em cerca de 80% dos casos de reação, a vítima acaba sofrendo lesões graves ou sendo morta pelo bandido. As ocorrências registradas na Capital, portanto, seriam exceções, já que na maioria delas, os assaltantes é que acabaram levando a pior, sendo presos ou feridos pelas vítimas.
A polícia até hoje não conseguiu identificar o ''justiceiro'' que, no dia 27 de outubro, abriu fogo contra dois assaltantes que abordaram um ônibus da linha Vila Macedo, em Piraquara, região metropolitana. Um dos bandidos, Luiz Henrique de Lima, 20 anos, foi atingido por dois disparos e seu comparsa, Cristian César da Silva, 18 anos, foi preso.
Também no final do mês passado, Wagner Fernando Ocraska, conseguiu, com ajuda de outras pessoas, prender Anderson José de Moraes, um dos três marginais que o assaltaram no Bairro Fazendinha. A reação só não foi totalmente bem-sucedida porque, apesar de Ocraska não ter se machucado, os outros dois bandidos fugiram com seus pertences.
O delegado-adjunto da Delegacia de Delitos de Trânsito (Dedetran), Artem Dach, não teve tanta sorte assim, pois foi baleado nas duas pernas ao decidir enfrentar o bandido numa tentativa de assalto. O policial, no entanto, acha que teve sorte sim. Caso os disparos o tivessem atingido no abdômem poderia não ter sobrevivido para contar a história. ''Deus foi generoso, evitando que a tragédia fosse maior'', declara.
Dach foi abordado por um assaltante, em pleno meio-dia, quando ia entrar em uma agência bancária na Avenida Sete de Setembro para depositar parte dos R$ 1,2 mil que havia retirado de uma outra agência, na Avenida Batel. O bandido, que chegou em uma moto, pediu que o delegado voltasse ao carro para pegar a pasta onde estava o dinheiro.
Achando tratar-se de brincadeira de algum conhecido, Dach conta que, num primeiro momento, não deu importância para a abordagem. Quando o assaltante exibiu a arma, o delegado ainda tentou convencê-lo de que seria melhor ele ir embora. ''Em 35 anos na polícia, bandido sempre respeitou a polícia'', diz Dach. ''Achei um desaforo, uma humilhação. Fiquei com raiva. Na hora, você esquece tudo e parte para a ignorância'', afirma o delegado ao contar que foi atingido pelos disparos quando tentou se aproximar do ladrão para desarmá-lo.


