O risco de se apoiar no rancor
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de novembro de 1996
José Antonio Pedriali 
A campanha eleitoral no rádio e na televisão termina hoje para que, nos dois dias que antecedem a eleição, o eleitor londrinense possa meditar sobre as propostas apresentadas pelos candidatos Antonio Belinati e Luiz Carlos Hauly e decidir qual dos dois merecerá o seu voto. A campanha eleitoral termina deixando uma interrogação: o que aconteceu com Hauly para que, na reta final, dois institutos de pesquisa - o Datafolha e o Alvorada - apontassem uma queda brutal em seu índice de aceitação e, em contrapartida, seu adversário crescesse tanto?
Analisar as pesquisas é tarefa para matemáticos e marqueteiros. Mas basta fazer um rápido retrospecto dos programas eleitorais de Hauly e contrapô-los aos de Belinati para se constatar que a candidatura tucana vem patinando desde o início do segundo turno. Hauly apresentou-se no primeiro turno como a opção de mudança, o único capaz de enfrentar a pretensão de Belinati de tornar-se prefeito pela terceira vez, e, nesta fase decisiva da campanha, frustrou uma parcela significativa do eleitorado, principalmente o eleitor da classe média, onde está a maioria do seus votos: repetiu o mesmo discurso, apresentou poucas propostas - e quando as apresentou, como em relação aos estratégicos temas do IPTU e do emprego, simplesmente plagiou o adversário. E, o mais grave para suas pretensões, centrou sua plataforma numa campanha sem tréguas contra o governo do Estado.
Há uma mágoa profunda da população londrinense (e do Interior, por extensão) em relação ao governo do Estado e ao governador Jaime Lerner? Sim, e este tema já foi abordado neste espaço, mas fazer dessa mágoa o eixo central de uma campanha eleitoral, como está acontecendo com Hauly, pode custar-lhe caro. E por quê? Porque, por mais ressentido que o londrinense possa estar com o que muitos chamam de o governador de Curitiba, ele não quer que seu prefeito - atual ou futuro - venha a se desentender com o governador. Porque o eleitor, principalmente os das classes menos favorecidas, justamente o eleitor que Hauly teria de cooptar, teme que o rompimento do prefeito com o governador, que detém as chaves de verbas vitais, venha a prejudicar seriamente o desenvolvimento do município. O presidente da República e seus ministros, que Hauly tem apresentado como seus aliados, surgem para o eleitor quase como uma entidade mística. Afinal, Curitiba está mais próxima de Londrina do que Brasília...
E isto explica a insistência com que Belinati tem aparecido ao lado do governador, em out-doors, nos programas eleitorais, nos anúncios de obras e outras atividades a que o sr. Jaime Lerner tem se dedicado a desenvolver em Londrina nas últimas semanas (vivam as eleições!). Isso explica porque dona Emília gravou peças publicitárias enfatizando sua posição de vice-governadora, deixando para segundo plano a condição de esposa do candidato. O eleitor quer a convivência harmônica entre prefeito e o governador, e a coordenação da campanha de Belinati captou esse desejo e soube explorá-lo.
Belinati iniciou o segundo turno em desvantagem em relação a Hauly. Ele se desestabilizou psicologicamente com a passagem de seu adversário para o segundo turno, quando os dois institutos de pesquisa de Londrina apontaram no dia 3 de outubro que a eleição poderia ser decidida naquele dia e as pesquisas de boca-de-urna, realizadas também pelos dois institutos, confirmaram essa previsão, que ruiu diante da dificuldade do eleitor em manusear a urna eletrônica.
Hauly iniciou esta fase decisiva da eleição com o fator psicológico a seu favor, já que muitos dos eleitores de Belinati passaram a temê-lo e a respeitá-lo. Belinati, porém, superou o impacto das urnas e fez do otimismo a coluna vertebral de sua campanha, contagiando seus eleitores cativos ou em potencial. Para o eleitor, passou a mensagem do amor, em contraponto ao rancor que predominou nos programas eleitorais de Hauly. E o ódio, diria o conselheiro Acácio, não é o melhor dos cabos eleitorais. A não ser que estejamos no mesmo caminho da Bósnia.
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é editor responsável por Política, Opinião e Economia da Folha


