A iminência de serem instaladas três usinas sucroalcooleiras no Norte Pioneiro (compreendendo 46 municípios) causa apreensão pelo risco de os canaviais - que virão como natural consequência - invadirem as propriedades que hoje produzem alimentos. A perspectiva é que 120 mil hectares da região serão tomados pela cana, área superior aos 110 mil hectares que formam hoje pequenas propriedades, produtoras principalmente de algodão, soja, milho, tomate, cebola, café, amendoim, feijão, arroz e mandioca. A entrada da cana (em parte já cultivada na região) poderia induzir esses lavradores a abandonarem o que hoje produzem ou arrendar a terra para os canavieiros, passando a deslocar-se para as cidades e não mais retornarem ao campo.
No caso do arrendamento, o alerta dos técnicos é que esse contrato é por tempo determinado e o solo não irá receber o mesmo trato que é dado pelo próprio dono. Além disso, queixas de pequenos proprietários feitas à reportagem deste Jornal é que os usineiros que lhes compram a cana atrasam o pagamento. Se há quem defenda a entrada intensiva da cana, alegando que ''o produtor irá apenas mudar de cultura agrícola'', outras vozes recomendam cautela, como a do presidente da Associação dos Municípios do Norte Pioneiro e prefeito de Quatiguá, Efraim Bueno de Moraes. ''Precisamos saber quais serão as áreas agrícolas a serem afetadas pelos canaviais. Sou contra o projeto se forem atingidas propriedades de pequenos agricultores'', ele diz.
Também o pesquisador João Henrique Caviglione, do Instituto Agronômico do Paraná - consultado pela FOLHA - recomenda que seja feito estudo mais apurado para escolha das áreas de plantio de cana. Essa cultura, ademais, remete para os riscos ambientais, por causa da queimada das palhadas antes da colheita. Na história brasileira, a cana está associada aos ''senhores de engenho'' e ao trabalho escravo e que só enriquecia os usineiros, semeando a pobreza ao redor. Mas o estigma que parece marcar esse tipo de cultura não pára aí. No caso da colheita, que ainda hoje é manual e emprega muitos tralhadores volantes - o trabalhador marginal denominado bóia-fria -, se a mecanização entrar nos canaviais haverá desemprego.
O grupo paulista que planeja implantar as usinas já está à procura de terras para comprar e plantar cana, ou arrendar, neste caso com proposta de 15 a 20 anos de contrato. Também empresários norte-americanos estão interessados em plantar cana no Brasil, especialmente para a produção de álcool automotor. Uma boa política será, mesmo, uma planificação antes de ''inundar'' de canaviais o Norte Pioneiro. A solução reside nas culturas diversificadas, incluindo a cana, e a implantação também de outros tipos de indústrias. O que não se planejar agora pode resultar em problema de difícil solução no futuro.

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