O Restêlo é aqui? (Helio Duque)
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de fevereiro de 1998
Helio Duque 
Nos Lusíadas, genial poema de audácia e otimismo, Camões, com criatividade e na fantasia poética imortal, destaca no seu canto IV a figura prudente e tradicional de um ancião que não admitia a navegação. Era o Velho Restêlo, a gritar imprecações, clamando, vociferando num discurso exaltado contra os aventureiros navegadores que, singrando os mares bravios, descortinavam um nova fronteira para o império lusitano.
O Velho Restêlo na sua pregação contra Vasco da Gama quando partia para descobrir as Índias, sentencia que os navegadores não sobreviveriam. Furibundo, amaldiçoa o inventor do navio, condenando-o às torturas do inferno: Oh! maldito o primeiro que no mundo/ nas ondas vela pôs em seco lenho!/ digno da eterna pena do Profundo/ se é justa a lei que sigo e tenho.
Essas reflexões camonianas, saídas do épico Os Lusíadas, brotaram no meu dia-a-dia recentemente. Quinhentos anos depois, eis que o Velho do Restêlo parece ressurgir no Paraná. Ausente do Estado, por 30 dias, ao retornar surpreendido fui com uma massiva divulgação, dando conta da capitulação do PSDB na disputa do governo estadual em 1998.
E os adeptos da filosofia do ancião Restêlo, numa criatividade de fazer inveja ao imortal Camões, distorcem com inegável competência os fatos reais. Criam uma atmosfera conspiratória com tamanha eficácia, buscando substituir a realidade pela ficção. Às vezes resvalam-se para um primarismo que nada tem de Camões, aproximando-se mais contemporaneamente de Goebels, o artífice da propaganda do III Reich, para quem uma mentira repetida mil vezes, torna-se verdade.
Vamos definir, de uma vez por todas, o seguinte: o PSDB paranaense vai disputar o governo do Estado com candidatura oriunda dos seus quadros. Fará alianças, no tempo certo, com partidos políticos e setores da sociedade civil que tenha um perfil histórico compatibilizado e identificado com o ideário de uma realidade mais justa para o povo trabalhador.
É pura enganação, perda de tempo esperar que Brasília ou Bill Clinton vão intervir ou impor soluções de cima para baixo num tempo democrático. Fôra assim e episódios recentes, ainda na lembrança de quem tem memória, teriam tido outro desenlace. Só para citar o último: diziam que FHC imporia a entrada do governador do PSDB e era fato consumado. O que ocorreu?
O tempo do autoritarismo já passou. Naqueles idos, o espirro dado em Brasília determinava que nas províncias, mesmo os que se alimentavam de vitamina C, ficassem gripados. Era o tempo da bionização, da subserviência subserviente (com perdão da redundância).
Então vamos combinar o seguinte: no Estado democrático o grande juiz é o povo e sendo assim vamos respeitar o julgamento proferido pela cidadania no uso dessa hóstia cívica que é o voto. A soberania popular julgará e escolherá aquele que deseja para governá-lo. No caso, o PSDB se apresentará no pleito como o seu candidato. Nada mais democrático.
Em nome da credibilidade e da ética no respeito à opinião pública, vamos esquecer as imprecações dignas do Velho do Restêlo que, na sua incontida ânsia contra os navegadores, satanizava o próprio direito de navegar por mares procelosos.


