O resgate da cultura indígena - Marisa Goettel do Nascimento
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de janeiro de 1998
Marisa Goettel do Nascimento 
A complexidade de se lidar com outra cultura é vivenciada por qualquer um quando se está num outro país. No Japão, deve-se tirar os sapatos antes de entrar numa casa, em muitos templos e até em restaurantes - isso para ficarmos somente num exemplo. Mas não precisamos ir ao outro lado do mundo para depararmos com essa complexidade. Temos aqui mesmo em nosso país grandes diferenças culturais, principalmente quando estamos tratando do índio.
Como compreender quando um índio deixa a reserva para vender seus balaios na cidade e traz junto o filho, alegando que não pode deixá-lo para trás porque seria o mesmo que abandoná-lo, mas, ao tempo , o expõe a uma série de situações de risco, próprias da cidade? Quando vemos um indiozinho mendigando pelas ruas ou imitando outras ações da dita civilização, devemos refletir sobre a questão cultural que tem nos desafiado a cada dia.
Antes de mais nada, é preciso que se respeite o índio, entendendo que ele traz consigo uma bagagem milenar de costumes e tradições, que, infelizmente, estão sendo pouco a pouco diluídas no processo de aculturação com o homem branco. Muitos índios hoje sentem vergonha de ser índios, exatamente porque neste choque de cultura são taxados de vagabundos e bêbados. Há até quem diga que índio bom é índio empalhado. Isso tudo é reforçado por atos como o praticado em Brasília por adolescentes que resolveram brincar com fogo e tiraram a vida de um índio pataxó.
O índio precisa e procura respeito e dignidade, e tem travado uma luta desigual em todos os aspectos. As terra que recebem normalmente são as piores para a agricultura, demandando alta tecnologia e maquinários para que possam produzir. Em quase todas as reservas aumentam os problemas com posseiros e invasores e, por falta de condições apropriadas, os órgãos que deveriam atender a população indígena não conseguem fazer um trabalho satisfatório. Isso faz com que, cada vez mais, os poderes municipais tenham que arcar com algumas responsabilidades na busca de soluções.
Londrina não tem fugido dessa responsabilidade e é destaque nacional na questão da atenção à comunidade indígena, fazendo um trabalho pioneiro que visa resgatar a cidadania dos kaingángs da Reserva do Apucaraninha, através de programas das Secretarias de Ação Social e Saúde, principalmente.
Hoje estamos lançando o Centro Cultural Kaingáng, que será construído no local onde atualmente existe o acampamento dos índios. Esse local constantemente sofre duras críticas da comunidade e da imprensa, em função das condições precárias de instalação. O Centro vem resolver este problema, através de uma revitalização total do local, no sentido de oferecer condições dignas de vida aos kaingángs, enquanto permanecerem na cidade para vender seus produtos artesanais, além de oferecer à comunidade a oportunidade de estar conhecendo mais a cultura indígena, através de uma biblioteca que funcionará no local, com material didático, fotos e livros.
Há quem diga que a construção do Centro significará que os índios vão se mudar para a cidade, abandonando a Reserva do Apucaraninha. Isto não procede. Que diriam, então, a comunidade e os defensores dos direitos humanos e das minorias, se parássemos com caminhões em frente ao acampamento, forçássemos os índios a subir nele e queimássemos barracas?
E para onde levaríamos os índios, já que a comunidade quer o problema resolvido, mas que seja bem longe de sua casa? Os índios vêm à cidade para complementar sua renda familiar com a venda de produtos artesanais, uma vez que do solo da Reserva do Apucaraninha (o pior de toda Londrina) não conseguem tirar o sustento de suas famílias. A vinda deles para vender artesanato obedece a um rígido esquema de rodízio, estipulado pelo próprio cacique, e é assim que continuará depois da construção do Centro.
Através do Programa de Atenção aos Kaingángs de Londrina, a Secretaria de Ação Social tem procurado dar aos índios melhores condições de vida e trabalhado intensamente na questão do resgate cultural. O Centro Cultural Kaingáng será motivo de orglho para toda a cidade. E a sociedade londrinense, ao invés de somente parar o carro e doar aos índios cestas básicas e utensílios que estão sobrando em casa, vai poder descer e conhecer de perto um pouco mais da cultura daqueles que foram os primeiros que ocuparam nossa terra vermelha.
Durante todo o desenvolvimento do projeto de construção do Centro, houve a preocupação de se estar estudando e respeitando a cultura e os costumes dos kaingángs, no diz respeito à moradia. E este é o dever das políticas públicas: devolver aos índios aquilo que foi usurpado ao longo dos 150 anos de convivência e prestar serviços respeitando as especificidades culturais de cada grupo.


