Um enigma de 160 anos voltou à tona no coração da Europa. Em 1828, em uma bela primavera, apareceu uma criança de seis anos em Nuremberg. Quem era? Bem vestido, ele tinha no pescoço uma placa com seu nome, Kaspar Hauser, e sua data de nascimento. A Europa se apaixonou por aquela criança selvagem e civilizada. Estávamos em pleno Romantismo: aquele ser vindo de lugar nenhum, mudo, de bom berço, tornou-se um objeto da medicina e da literatura.
Tentamos reeducá-lo. Ele aprendeu algumas palavras. Entregou a seu preceptor fragmentos de sonhos (com os quais os psicanalistas se regalaram). A literatura se voltou para ele: ‘‘O caso Kaspar Hauser é o romance mais apaixonante de todos os tempos’’, disse Golo Mann, filho de Thomas Mann. Kaspar Hauser inspirou Hoffmanstall, Rainer Maria Rilke, Georg Trakl, Peter Handke e o cienasta Werner Herzog. Na França, Paul Verlaine, no século 19, citou-o em um poema: ‘‘Será que eu estou adiantado ou atrasado demais? O que estou fazendo nesse mundo? Ó, todos vocês, minha dor é profunda! Rezem pelo pobre Gaspard!’’
Kaspar era também um quebra-cabeça genealógico: de onde veio aquela criança selvagem? Pensou-se que Kaspar Hauser fosse herdeiro do trono de Bade. Ele teria sido filho do grande duque de Bade e de sua esposa, Stephanie de Beauharnais, filha adotiva de Napoleão. A criança, dotada de faculdades mentais débeis, teria sido abandonada na floresta como uma forma de se eliminar o herdeiro do duque. Para aumentar o suspense, Kaspar, após alguns anos, foi assassinado de maneira jamais compreendida.
Hoje um grande geneticista alemão, após analisar marcas de sangue em sua camisa, refuta a tese de que o menino era herdeiro de Bade. Kaspar Hauser mergulha novamente em seu segredo: criança de boa família, porém muda e selvagem, que apareceu um belo dia em Nuremberg e foi assassinada alguns anos mais tarde. Criança sem origem, surgida do nada.
História fascinante. Em 1828, data de sua aparição, havia duas razões para esse fascínio: primeiro porque buscava-se, naquela época romântica, uma criança ‘‘no estado natural’’, livre de todas as máculas da sociedade. Segundo, estava-se no auge da psiquiatria e havia um interesse pelo que poderia se transformar um espírito privado de cultura, de sociedade, de família, etc.
Sob diferentes formas, o mito da ‘‘criança natural’’ mais tarde se repetiria: na França, foi encontrada uma criança-lobo na floresta, uma criança que, abandonada ainda muito jovem, nunca aprendeu a falar e a andar sobre duas pernas.
O mito reapareceu nos países tropicais: sob uma forma carismática, que comoveu as crianças, o ‘‘selvagem’’ adquire a forma de Mogli, aquela criança perdida nas floresta das Índias à qual Kipling atribuiu divertidas peripécias.
Um pouco mais tarde, nos Estados Unidos encontramos o Tarzan, o homem das selvas que se tornará amante de Jane em um dos belos filmes deste século.
Hoje, o mito foi relembrado na Alemanha pelo diagnóstico de Kaspar Hauser, recolocando um obscuro véu ao redor da criança morta.
Por que essa volta da criança de Nuremberg alerta tanto o mundo inteiro? É que a questão levantada em 1828 por Kaspar Hauser, depois por Kipling e mais tarde por Tarzan continua a ser um enigma: o que é o homem? E o que seria do homem se não fosse moldado pelo meio onde vive, no decorrer de milhares de anos de cultura que seus patrões, pais e amigos lhe transmitiram?
Mas, como todos os mitos, este, devido à sua configuração atemporal, se enriquece de novas feições a cada novo século.
Kaspar Hauser não é exceção. Nossa época, tão opulenta, tão aperfeiçoada, tão genial, é também uma época implacável. E principalmente para com as crianças: este século multiplicou o número de pediatras, de creches, de jardins de infância e dos pequenos potes de vitaminas nas farmácias. Mas esse mesmo século possui dezenas e centenas de milhares de crianças perdidas, de Moglis e de Kaspar Hausers. Quantas foram as crianças perdidas nas florestas da Indochina, as crianças perseguidas pelos guerrilheiros do Vietnã e dizimadas pelas bombas americanas?
E hoje a tevê nos mostra as crianças negras do Zaire e de Ruanda, que nos explicam em seu francês balbuciante que viram a mãe ser morta por uma bomba, a irmã mais velha ser violentada, o pai ser decapitado. E depois elas foram reunidas, esses filhos malditos de outros filhos malditos, e passaram a comer rações, a beber água lamacenta.
Nossa época bateu recordes em todos os aspectos, no bem e no mal. Há quase dois séculos, uma criança perdida e surgida na Alemanha inflamou toda a Europa, tão raro era tal abandono, tal renúncia. Hoje, formamos - sob as bandeiras da ONU e ao mesmo tempo da impotência - milhares de Kaspar Hauser, e cada um desses pequeninos negros de olhos tristes poderia dizer o que Kaspar disse na canção de Paul Verlaine: ‘‘O que estou fazendo neste mundo? Ó, todos vocês, minha dor é profunda! Rezem pelo pobre Kaspar!’’
- GILLES LAPOUGE é escritor e correspondente em Paris da Agência Estado

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