O recado está dado - Fernando José Dias da Silva
O recado
está dado
Fernando José Dias da Silva
Antes era um som longínquo como da cidade acordando, ou como se a boiada ainda estivesse distante. Um som meio difuso encoberto pelo barulho das coisas próximas que chamam a atenção, até dos passarinhos. Agora é um ronco ensurdecedor como se a 5ª Cavalaria estivesse ali... pertinho. Como se a bateria da Mangueira tivesse tomado todas as cidades. Como se o zunido angustiante das máquinas da Fórmula 1 estivesse amplificado por todas as praças, de todo o País. E, a voz rouca das ruas se transformou em um rugido ensurdecedor que não incomoda mais. Dá medo.
As pessoas assistem perplexas à revolta. Mas para os que têm o coração mais duro as pesquisas ajudam nessa viagem rumo à realidade. Elas indicam que o povo está com nojo de tudo, de todos. Não sobra nada: o presidente, os políticos, os partidos da situação e da oposição o Judiciário, a polícia, os transportes, os empresários, os jornalistas. A essa altura até o Corpo de Bombeiros, que era uma das poucas instituições que mereciam respeito, já deve ter entrado no rolo do descrédito. O povo não acredita nem mesmo nele.
É chocante porque todo mundo sabe o que está acontecendo. Quase 90% da população de São Paulo sabe das bandalheiras na prefeitura. Não dá mais para esconder nada. Não sobra mais pedra sobre pedra, mas não é a catástrofe. Apesar de várias análises sociológicas, de estatísticas atenuantes, o Brasil, é sim, um dos países mais corruptos da face da Terra. Só que para isso há correção.
O professor Stephen Kanitz diz que o problema não é de corrupção é de auditagem. Não existe geneticamente nada que predisponha o brasileiro à corrupção. Ele também diz que não serão intervenções cirúrgicas (CPIs), nem remédios potentes (códigos de ética) que irão resolver o problema. Precisamos de um poderoso sistema imunológico que combata a infecção no nascedouro, como acontece nos países considerados honestos e auditados.
Mas talvez nós possamos ir além para detectar o problema, não apontar a solução. O fator condicionante fundamental que nos levou a tudo isso que está aí é a frustração. Uma amazônica, incomensurável, arrebatadora frustração. Aquele trago amargo de tudo que era para ter acontecido e não aconteceu, daquilo que deveria ter sido e não foi.
Nunca se pediu muito, só coisas singelas; principalmente respeito. Uma distribuição de renda um pouquinho mais decente. Uma preocupação um pouquinho maior com o desemprego. Uma atenção um pouquinho melhor para com os jovens e passar com os velhos. Um retorno um pouquinho mais adequado para tudo o que se investe e o que se arrecada. Tudo isso, mas só um pouquinho.
O que se vê, entretanto, é o deboche. Ninguém se comove com os moradores das cidades que se formam em volta das cidades. Cidades cinzentas de homens cinzentos. E daí a frustração porque a alma desses batalhões também já começou a ficar cinzenta.
Então os casos de corrupção, que afloram como bolhas do lamaçal e revoltam os homens de boa vontade, podem servir de advertência para os que pretendem analisar os fatos de maneira literal, isolados do grande contexto. É claro que toda essa avalanche de imundícies provoca indignação geral. Mas é preciso ficar atento para o outro sinal que a população está dando ao execrar esses métodos: ela está perplexa com a desfaçatez dos poderosos ao disputar a carniça. Daqueles que nem se importavam mais em disfarçar suas evoluções no ritmo da picaretagem.
Pegaram alguns. Faltam, muitos, talvez os mais graúdos. Até que se prove o contrário, esses não devem ir para a cadeia. Mas em compensação eles já foram identificados, as impressões digitais já foram arquivadas os mesmos que prometeram que as coisas iam mudar. De qualquer forma, o recado está dado, quem souber interpretar os humores das ruas e dos becos e fizer parte do esquema deve estar preocupado.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo





