O povo vai às urnas em 1998 para eleger o novo Presidente da República (ou reeleger o velho), 23 novos governadores (ou reconduzir os velhos) e meio milhar de parlamentares. Apesar da importância das eleições parlamentares, o cenário político deverá ser dominando pela eleição presidencial e um segundo plano pelas estaduais. O Presidente já está em campanha pela reeleição. Ele deu o sinal de partida e indicou o tema numa entrevista à revista Veja. Pretende ganhar, de novo, cavalgando o seu maior trunfo, que é uma economia estável, com inflação abaixo dos 10% anuais. Para o Presidente, a reeleição só terá problemas se houver pertubação nos mercados financeiros ou se o governo se envolver em escandâlos. Quanto aos escandâlos, o governo se previne, como fez recentemente colocando uma pedra do tamanho do Pão de Açúcar esmagando a tentativa do Congresso de abrir uma CPI para apurar a compra de votos. No caso de pertubação externa, que poria em risco a política de câmbio do Plano Real, o governo pode pouco, mas ele acredita que não há ameaça séria no horizonte dos próximos 15 meses.
Na perspectiva do governo, então, a estabilidade da moeda continuará sendo um elemento essencial da discussão durante as campanhas, garantindo os votos necessários à reeleição do Presidente. Já, quanto aos governadores, não há tanto otimismo.
Acredito que, mesmo que não sejamos alcançados por perturbações externas, o fulcro das discussões vai se deslocar para as questões sociais mais agudas, por exemplo: o desemprego; a falência do sistema federal de atendimento à saúde; a defasagem salarial que penaliza dos trabalhadores do setor público; a queda do poder de compra dos aposentados; e as tensões derivadas da insegurança. Tendo em vista o fato que o programa de estabilização se encontra preso a uma armadilha que impede o crescimento da economia, aquelas tensões tendem a agravar-se nos próximos meses.
Em resumo, a campanha deve transcorrer numa conjuntura de economia estável, com índices bastante reduzidos de inflação e baixa oferta de empregos, desestimulando movimentos de reivindicação trabalhistas. Isto favorece obviamente o oficialismo. Em contrapartida, a economia crescerá muito pouco. A taxa de crescimento do PIB será insuficiente para absorver a mão-de-obra desempregada e para dar emprego aos recém-chegados ao mercado de trabalho, tanto nas cidades como no campo, resultando em agravamento das tensões sociais. É uma situação que pode piorar se houver turbulência nos mercados financeiros, porque o programa de estabilização se enredou num processo de crescente endividamento, gerando uma perigosa dependência do exterior. Embora não se vislumbrem maiores problemas de financiamento externo no curto prazo, os investidores que aplicam nos chamados ‘‘mercados emergentes’’ estão hoje, menos tranquilos do que há duas semanas, por causa dos problemas cambiais e financeiros na Tailândia e na Malásia.
- ANTONIO DELFIM NETTO, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, é deputado federal (PPB-SP)

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