O real e a família - Severino Cavalcante de Souza
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de outubro de 1997
Severino Cavalcante de Souza 
Primeiro foi o frango, depois a dentadura. Agora é o automóvel. Os símbolos do Plano Real estão cada vez mais caros, e, ao contrário do que pretende o Governo, parecem estar cada vez menos ao alcance dos brasileiros. A polêmica não é de hoje: nasceu em 1994, junto com o novo plano econômico. O Governo garante que o brasileiro passou a comer mais frango, que começou a tratar dos dentes, e na última versão eufórica, passou também a comprar mais automóveis.
A realidade mostrada pelas estatísticas é outra. Até porque, se é verdade que o salário do pobre aumentou - como pretende o Governo, e como gostaria que fosse verdade o pobre -, é de fato inegável que também na família brasileira há cada vez menos gente para pagar a conta do frango. É o que poderíamos chamar de efeito três-em-um - numa recordação saudosista dos tempos em que a classe média se esmerava em comprar aparelhos de som modernos, e conseguia quitar as prestações. Agora o três-em-um é de outra modalidade: há apenas um empregado na família, para pagar a conta de três - em média.
Num levantamento do Seade-Dieese em relação ao município de São Paulo e demais municípios da região metropolitana verifica-se que do Plano Real para cá muita gente deixou de pagar o frango que ainda consegue comer. Em 1994, quando começaram a dizer o que o Plano Real tinha de bom, o índice de desemprego na região metropolitana de S.P, estava em 14,2%. Nove anos antes (1985), esse índice para a mesma região não ultrapassava os 12,2%. Em 1996, quando ainda teimavam em esconder o que o Plano Real tem de ruim, esse índice pulou para 15,1%, e continua crescendo. Nos demais municípios da região metropolitana de São Paulo os números de revelam ainda mais assustadores. Em 1996 a taxa de desemprego atingia preocupantes 17%.
E não é um fenômeno apenas paulista, ao contrário do que se pretenda supor. A tendência se mantém pelo Brasil afora, sem nenhuma perspectiva de melhora em horizonte próximo, muito pelo contrário. Ganha um frango de presente quem descobrir uma região do País que o índice de emprego de mão de obra esteja em franca ascendência.
A aflição do brasileiro, que antes estava direcionada para a inflação, voltou-se para a questão do desemprego, segundo constatam pesquisas da Vox Populi e de outros institutos. Se de fato matou a inflação, o brasileiro agora teme morrer de desnutrição com a falta de emprego. E não se trata apenas de um problema de subsistência: quando perde o emprego, o trabalhador perde também - para citar apenas um exemplo de auto-estima - a assistência à saúde garantida pelos convênios com planos privados que muitas empresas mantêm para seus trabalhadores. Se tem mulher e filhos, essa garantia de assistência passa a faltar também para todos os seus dependentes. É uma situação aflitiva que foge à ótica dos tecnocratas, preocupados apenas com a fria miragem dos números globalizantes. Não é por outro motivo que mães em desespero são presas roubando remédios para filhos doentes.
Ninguém pode negar que o Brasil tenha vivido um período de estagnação, deixando de investir em setores fundamentais, como a especialização da mão de obra e a modernização tecnológica de seu parque industrial. A agonia da corrida internacional globalizante não pode, no entanto, colocá-lo no caminho do atropelo em busca da competitividade a qualquer custo, sob a pena de experimentar - além do gosto amargo dessa estagnação - também a falência de seus valores e o esmagamento físico e moral da riqueza de que ainda pode dispor, consubstanciada na força de uma população ainda jovem e decidida a manter sua dignidade.
Além dessas mazelas, com o aumento do desemprego os recursos previdenciários ficam seriamente afetados, pois precisam manter mensalmente cerca de 17 milhões de beneficiários. Isto sem falar nas dificuldades que os atuais desempregados terão futuramente para conseguir um benefício previdenciário.


