O real, cinco anos depois - Paulo Varela Sendin
O real, cinco anos depois
Paulo Varela Sendin
Em recente entrevista, o ex-ministro Delfim Netto declarou que o Plano Real já acabou. Depois de cinco anos, espera-se que o ex-ministro tenha razão. Não é possível para a sociedade brasileira viver eternamente em função de um plano econômico, por melhor que ele seja. O plano já cumpriu seu papel e está na hora de nos preocuparmos não mais com o Real mas sim com a realidade do País.
Durante a crise cambial do início do ano, o real (a moeda, não o plano) demonstrou que pode suportar bem os terremotos econômicos deste nosso mundo globalizado. Depois de um breve período (a chamada bolha inflacionária), em que todos os analistas prognosticaram o caos absoluto, verificou-se, de fato, uma recuperação da estabilidade.
Se o real parece hoje estabilizado, em termos de índices de inflação, é justo tentar uma análise dos custos incorridos no processo.
Um desses custos, talvez o de maior impacto na sociedade brasileira, foi e continua sendo o desemprego. Embora não fosse, obviamente um dos objetivos do plano, as medidas tomadas e mantidas durante esses longos cinco anos, no que se refere a taxas de câmbio, juros e abertura comercial desordenada, levaram à reorganização ou quebra de muitas empresas e consequente perda de postos de trabalho. E, nesse período, as oportunidades derivadas das mudanças nem de longe foram capazes de criar empregos novos para compensar a destruição criativa das firmas pretensamente ineficientes.
Outro setor que certamente contribuiu para o sucesso do plano à custa de muitos sacrifícios foi a agricultura ou, ampliadamente, o agronegócio. A âncora verde foi viabilizada a partir de uma enorme transferência de renda do setor rural para o urbano, garantindo, através da redução dos preços pagos aos produtores, a estabilidade dos índices de inflação. O custo dessa situação foi pago tanto pelos empresários rurais como pelos trabalhadores do setor, quando centenas de milhares de empregos foram perdidos pela abertura do Brasil à competição internacional, sem a rede de proteção presente em todos os países com os quais competimos no mercado internacional.
Muitas análises, abordando estes e outros problemas causados pelo Plano Real podem e serão feitas, especialmente agora, quando se comemora seu quinto aniversário. Mas há realmente algo a comemorar? É difícil de convencer o empresário falido ou o trabalhador que perdeu o emprego, mas nem tudo foi negativo.
A estabilidade em si mesmo já é um fato a comemorar. É um cenário inusitado, ausente nos 20 ou 30 anos anteriores ao plano. O cenário é tão diferente que, nos primeiros anos a pergunta que pairava no ar era sempre sobre quando a inflação iria retornar. E essa postura de descrédito retornou rapidamente na crise do início do ano, quando até mesmo o governo fez previsões negativas quanto à estabilidade dos preços.
Outro fator positivo foi a possibilidade de se voltar a fazer um planejamento um pouco mais sério, após tantos anos de prospecções feitas sem nenhuma convicção e sempre fadadas a ser anuladas pela incerteza inflacionária. Novamente, a recente crise cambial mostrou que a doença das previsões irreais não estava totalmente controlada, pois na primeira oportunidade os futurólogos passaram a construir cenários catastróficos.
Mas o maior ganho desses cinco anos de relativa estabilidade da moeda, talvez seja o grande aumento no nível de transparência dos preços relativos. A possibilidade de se comparar preços sem o viés inflacionário permitiu, no âmbito das empresas, um maior grau de competição. Para o consumidor, essa transparência dos preços permitiu que ele viesse entender melhor o funcionamento do mercado e compreendesse seu poder de influenciá-lo. E, é a partir dessa compreensão de seu poder que esse consumidor poderá também assumir conscientemente seu papel mais importante que é o de cidadão. Talvez, a partir daí, tenhamos um Plano Real para a política brasileira, que nos garanta não a estabilidade mas sim a moralidade e a competência que tanto nos faltam.
- PAULO VARELA SENDIN é engenheiro agrônomo em Londrina





