Quando o relator da CPI dos Precatórios no Senado, Roberto Requião (PMDB-PR), anunciou que não iria ‘‘convocar’’ os governadores e prefeitos para depor, mas apenas ‘‘convidá-los’’, tranquilizou aos brasileiros, dando-lhes a certeza de que todos compareceriam. Na verdade, Sua Excelência pretendeu apenas ‘‘dourar a pílula’’, pois ele só convidou porque lhe faltavam poderes legais para convocar e, fiel à velha devoção dos políticos brasileiros pela meia-verdade, disse esperar que todos fossem, mesmo sabendo que muitos não iriam. Aliás, os outros brasileiros, pelo menos os de posse das faculdades mentais, sabiam de antemão que dificilmente eles atenderiam ao convite. E foi o que se deu.
O ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf (PPB) foi o primeiro a fazer ouvidos de mercador ao estridente convite do relator. Habituado a nunca responder o que lhe é perguntado, mas falar sobre o que não se lhe questiona, ele declinou da duvidosa honra de ser ouvido pelos senadores da CPI. Não pareceu, aliás, ter dado grande importância prática para o possível estrago político, que pudesse ser provocado por sua evidente indiferença. Até porque há motivos para crer que tais estragos, ao contrário do que pensa Requião, não serão tão preocupantes assim. Pelo menos é o que também pensam os governadores de Pernambuco, Miguel Arraes (PSB), e de Santa Catarina, Paulo Afonso Vieira (PMDB).
O primeiro, figura mitológica da esquerda, talvez até porque seja muito difícil entender o que fala, quando fala, e o segundo, mesmo estando sob vara na própria Assembléia Legislativa catarinense, nem se deram ao trabalho de responder ao convite da CPI. Seus membros tiveram de se contentar com os depoimentos do governador de Alagoas, Divaldo Suruagy (PMDB), do prefeito de São Paulo, Celso Pitta (PPB), e com a aceitação do prefeito de Goiânia, Darci Accorsi (PT).
Mesmo não tendo os depoimentos dos poucos que compareceram acrescentado grande coisa às conclusões do relator e da CPI, a verdade é que a indiferença dos eventuais acusados depõe contra a imagem de detergente, que aquele e os membros desta pretendem lhe dar. Na prática, a CPI está desmoralizada, desde que, por dificuldades políticas internas, concentrou seu poder de fogo sobre ratos miúdos do mercado financeiro, desprezando as evidências de culpa dos chefões dos partidos políticos. É verdade que, pressionada pela opinião pública, a CPI terminou encontrando uma vítima com mandato, o prefeito Celso Pitta, mas também ficou claro que ele foi escolhido por ser suficientemente poderoso para tirar do ar a impressão de ser a CPI um ‘‘rato que ruge’’, mas não ter bastante poder no Congresso para se livrar da pecha de réu.
Ainda assim, e mesmo tendo seus bens bloqueados por decisão da Justiça, Celso Pitta deve se livrar de um eventual impeachment por contar com sólida maioria na própria Câmara Municipal. Ao contrário do governador de Santa Catarina, Paulo Afonso Vieira, que tem conseguido ficar no emprego, mas ainda enfrenta o processo na Assembléia, embora, para se livrar dele, já tenha apelado até para a compra dos votos dos jurados que o sentenciarão, oferecendo aos deputados estaduais suas secretarias.
A diferença das punições não resulta tanto da inépcia da CPI, mas muito mais da confusão estabelecida pelo excesso de Justiças corporativas existentes no Brasil. Como os militares, os mandatários executivos gozam do privilégio de foros especiais e, como se sabe, havendo cortes diferentes, estabelece-se o sistema de dois pesos e duas medidas e a Justiça escasseia.
Para recuperar a credibilidade que perdeu, ao poupar Paulo Maluf, porque ele manda num partido importante no Congresso, e Miguel Arraes, por ser este um ícone da esquerda, a CPI tem a oportunidade de, pelo menos, propor um sistema jurídico único para o trâmite de impeachments de mandatários culpados. Pois os constituintes de 1988 trataram só do presidente e se esqueceram dos governadores e prefeitos.

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