Diz o ditado popular que raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Desta vez caiu. Bem em cima da República brasileira, fulminada pelas mortes do ministro Sérgio Motta e do deputado Luís Eduardo Magalhães. Imediatamente os jornais se cobriram de matérias sobre essas duas personalidades, e parece que tudo o que deveria ser dito sobres ambos, já o foi. Mas não é bem assim na medida que as duas ausências já desencadearam, ora em público, através da imprensa, ora nos bastidores do poder, discussões e cogitações que têm tudo a ver com o destino do Brasil.
É verdade que num primeiro momento a emoção superou antigas divergências, e o ministro Sérgio Motta, apelidado de ‘‘trator’’ e bastante criticado por suas rudezas e inconveniências verbais, foi unanimemente reconhecido depois de sua morte como aquele que auxiliou o presidente a preparar o Brasil para entrar na modernidade através, especialmente, do seu trabalho competente no processo de privatização na área de telecomunicações. Conforme editorial do ‘‘Jornal da Tarde’’, Sérgio Motta ‘‘criou o modelo a partir do qual vai surgir a cara do novo Brasil’’.
Isto é muita coisa, e pode-se imaginar o sentimento de perda do presidente Fernando Henrique, que tinha no ministro Motta um fiel amigo e colaborador. Além do mais, como escreveu Maquiavel, ‘‘os príncipes devem delegar para outras pessoas as tarefas impopulares, e conceder favores pessoalmente’’.
Quanto à morte do deputado Luís Eduardo Magalhães, foi ainda mais comovente. Primeiro porque se sobrepôs à de Sérgio Motta, quando a nação ainda não havia se recuperado do primeiro impacto. Segundo porque morreu moço. E se a morte dos moços dá a impressão de interromper brutalmente um processo em curso, a do jovem deputado interrompeu o processo de uma carreira ascendente que culminaria, segundo sua aspiração e a do seu pai, o senador Antônio Carlos Magalhães, com a Presidência da República.
Imagine-se, então, a dor desse pai diante da perda do filho. Ele não só perdeu sua continuidade em termos de descendência, como viu anulado seu projeto político mais caro. De qualquer forma, perdeu o melhor de si, porque os filhos são nossa melhor parte, e a perda de um filho significa uma lacuna jamais preenchida.
Já o presidente perdeu um dos seus mais preciosos articuladores, em que pese o fato de que o senador Antônio Carlos, pela fibra que o caracteriza, deverá continuar sua tarefa política e tentar suprir a do que se foi.
Ao mesmo tempo, o país se comoveu diante da morte dessas duas figuras públicas. Para além da ação política em vida, eles se apresentaram com sua face humana diante da morte. Então, partida e dor, essas antigas companheiras do homem desde os seus primórdios no planeta, se conjugaram e penetraram no sentimento e na compreensão de todos.
Mas enquanto a nação ainda se encontra estupefata diante do raio que caiu duas vezes no mesmo lugar, nos bastidores do poder, sem dúvida, planos começaram a ser traçados. De um lado as forças de oposição ao presidente já devem estar se rearticulando diante de um governo que presumem enfraquecido. Uma destas forças já está em franca campanha através do Movimento dos Sem Terra, ou da propaganda na televisão, onde não se comete mais o erro de combater o Plano Real mas se ressalta uma nebulosa justiça social e a questão do desemprego. Juntamente com outros partidos de oposição, esses adversários, que nunca apresentaram solução para o que criticam, tentarão mais uma vez se opor às reformas da Previdência e administrativa, necessárias justamente para a continuação da estabilização econômica. Este é o pessoal do ‘‘quanto pior melhor’’, que quer a qualquer custo o poder pelo poder.
De outro lado, o presidente tornará a enfrentar, mas desta vez sem seus principais articuladores, os eternos buscadores de cargos e regalias, que barganham o voto em troca de privilégios. Eles vicejam no Congresso e compõem a turma do ‘‘quanto mais para mim, melhor’’
Diante desse quadro, não falta quem diga que o governo de Fernando Henrique, abalado por perdas políticas consideráveis, entrará em declínio daqui para a frente. E a imprensa, sôfrega de escândalos e tragédias, já está enfatizando esta hipótese bem de acordo, aliás, com o gosto nacional pela catástrofe. Mas como numa corrida de revezamento, certamente o bastão será passado para alguém que continuará o processo em curso. Um processo que tantas vezes correu risco, como aconteceu durante a crise da Ásia, quando não faltaram previsões sombrias, mas que continua em frente.
Porém, lembrem-se as forças do atraso do clamor das ruas de Salvador quando o povo gritou Fernando Henrique:‘‘Presidente, faça as reformas, em homenagem a Luís Eduardo’’. E recordem-se do recado de Sérgio Motta ao amigo Fernando Henrique, poucos momentos antes de entrar para a UTI: ‘‘Não se apequene. Cumpra seu destino histórico. Coordene as transformações do país’’. E é com isso que todos os brasileiros com verdadeiro sentido de Pátria estão contando.

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