O racismo nos Estados Unidos
Depois que as previsões apocalípticas sobre a chegada do ano 2000 deram totalmente em nada, a direita radical e o movimento racista se valem de uma nova data para reunir suas tropas. Seria o ano de 2050, quando, segundo os demógrafos, os brancos não-latinos nos Estados Unidos se converterão em uma minoria.
Os partidários da supremacia branca estão fazendo grande alarido sobre isto. Afirmam que as projeções do Escritório de Censos dos Estados Unidos corroboram aquilo que eles vêm sustentando há muito tempo, ou seja, que os brancos nativos correm o risco de ter sua linhagem extinta. O que está em jogo insistem é a sobrevivência do núcleo da identidade nacional, sua essencial brancura, que está se desfazendo à medida que os EUA se tornam cada vez mais mestiços.
Hoje em dia, 72% da população norte-americana está classificada como branca, e esta porcentagem está diminuindo devido à baixa taxa de nascimentos entre os brancos e à contínua imigração de estrangeiros não-europeus durante as últimas três décadas. Atualmente, os recém-chegados aos Estados Unidos são na maioria asiáticos e latinos. A Califórnia, uma região construída por imigrantes, é o Estado mais populoso do país e o líder absoluto na mistura étnica. Em 1970, 80% dos californianos eram brancos não-latinos, mas, em agosto do ano passado, devido ao abundante fluxo de imigrantes, a proporção caiu para 49%, o que faz da Califórnia o terceiro estado depois do Novo México e do Havaí onde os brancos já não são maioria.
A chegada de um amplo número de estrangeiros desencadeou uma reação xenófoba que provavelmente irá piorar se a economia enfraquecer. Os imigrantes não-brancos são frequentemente o alvo de ataques raciais. Os crimes com um pano de fundo de ódio racial denunciados na Califórnia aumentaram 11% desde 1995, o que reflete padrões registrados em nível nacional.
Alguns extremistas de direita profetizam um cataclisma: a desintegração da União. Thomas W. Chittum, um veterano do Vietnã que vive em Nova Jersey, proclama em seu livro Guerra Civil Dois que os Estados Unidos se dividirão em várias regiões nacionais de diversificada base étnica. Os Estados Unidos da América nasceram ensanguentados, amamentaram-se com sangue, fartaram-se de sangue, cresceram até serem um gigante e se afogarão em sangue, escreve Chittum.
Separatistas brancos criaram grupos como o Norte-Americanos pela Autodeterminação, que tem entre seus fundadores Jeff Anderson, que recomendou que os Estados Unidos sejam divididos em Estados para negros, brancos, latinos etc., junto a Estados multirraciais para aqueles que desejam continuar com este experimento.
Uma evidência da influência da extrema direita na política dos Estados Unidos surge dos laços que unem pesos pesados do Partido Republicano, do presidente George W. Bush, como o líder da maioria no Senado, Trent Lott, e o recém-designado promotor-geral, John Ashcroft, com organizações que equiparam a mistura racial com o genocídio e defendem o legado da escravidão. Atualmente, advogados do poder branco com maior consciência sobre a importância da imagem passada pelo seu movimento evitam a mais torpe retórica racista e expressam seus argumentos numa linguagem em código para disfarçar a intolerância com as roupas do orgulho étnico.
Eles falam em preservar a identidade branca e de proteger os direitos dos euro-norte-americanos, que estão supostamente sendo atacados. Ao apregoarem a posição do Partido Republicano em matéria de programas de ajuda para as minorias, os que sustentam a supremacia branca afirmam que a deterioração do status social dos brancos, que, segundo eles, está acontecendo, é consequência de uma discriminação invertida contra a população de pele clara, e não o resultado das forças econômicas globais e dos processos sociais que estão tendo um impacto prejudicial em quase todos.
As campanhas xenófobas encabeçadas por ativistas de extrema direita e que culminam em uma legislação draconiana promulgada durante o governo Bill Clinton, tornaram realidade acentuados cortes nos benefícios e na proteção legal para os imigrantes e para os que solicitam asilo nos Estados Unidos. Aprovadas em 1996, as novas leis significam o mais sustentado ataque contra os direitos dos imigrantes nos tempos modernos, segundo Lucas Guttentag, da American Civil Liberties Union.
Dois anos antes, o Serviço de Imigração e Naturalização dos Estados Unidos lançou a Operação Gatekeeper, um esforço de US$ 300 milhões para criar um muro eletrônico ao longo de toda a fronteira com o México, para impedir a entrada dos chamados indocumentados. Além disso, o reforço das patrulhas de fronteira forçou muitos imigrantes a tentarem a entrada nos Estados Unidos em condições perigosas para suas vidas. O resultado disso foi que ocorreram 600 mortes desde o início da operação.
A Anistia Internacional condena as práticas abusivas da patrulha de fronteira norte-americana, a qual acusa de bater, violar e negar comida e cuidados médicos a muitos presos durante longos períodos. Este é um testemunho sério sobre até que ponto chegamos como nação desde que foi erguida a Estátua da Liberdade para dar as boas-vindas a todos os imigrantes.
- MARTIN A. LEE é escritor norte-americano, autor do livro The Beast Reawakens (A Besta Despertou Novamente) sobre o tema do neofascismo (IPS)
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