A problemática das relações interétnicas é algo extremamente instigante o que justifica a existência de programas de mestrado em Antropologia, em grandes universidades brasileiras, que se voltam para esta questão em nosso meio social. Isto chegou a me gerar interesse, quando eu estava terminando o curso de graduação em Filosofia, ao ponto de ter elaborado um projeto de pesquisa que propunha um estudo, especificamente, sobre o estado dos negros no Brasil. No entanto, terminei desistindo desta empreitada, pois quem se envolve com a Filosofia, e é tocado por ela, está condenado a ter dificuldades de abandoná-la.
Para mim, em particular, é um motivo de orgulho saber que possuo sangue africano correndo em minhas veias. Minha bisavó, do lado materno, era filha de escravos no interior do Rio Grande do Sul. Meu bisavó, homem muito rico, descendente de portugueses, não resistiu à tentação provocada pela serviçal da casa, abandonando, assim, o projeto de ser padre. Desta sua iniciativa resultou uma porção de filhos dentre os quais se destaca minha avó, que, por sua vez, casou-se com um neto de alemães, precisamente, gerando 14 filhos sendo um deles uma pessoa muito especial: minha mãe.
Muitos brasileiros são produto, assim como eu, deste cruzamento de raças e há um grande contingente, inclusive, que possui um pezinho, mesmo, na África. Por isso, 80% de nossa população é formada de mestiços, como atestam pesquisas feitas recentemente.
Indo ao cerne: estamos em novembro, o mês da ‘‘consciência negra’’, porque foi nesta época, há 305 anos, que se deu a aniquilação de Zumbi, grande líder do Quilombo dos Palmares, que representou o maior núcleo de resistência contra o racismo no Brasil durante o período colonial.
Em verdade, não deveria haver um mês exclusivo da ‘‘consciência negra’’, pois seria convidativo que ‘‘todo nascer do sol’’ fosse reservado para uma tal ‘‘consciência’’. Os administradores e estadistas gostam desta coisa de instituir datas e de adulador seus inimigos. Eles sabem que a crítica radical provém de quem está à margem, de quem está livre para ‘‘sair da linha’’. Esta acolhida do poder cria, notadamente, relações de compromisso e impõe a cumplicidade com a ordem e a moral vigente.
Não obstante, é salutar nesta época do ano o convite que fazem, especialmente nas grandes cidades, ‘‘os grupos de combate ao racismo’’ à reflexão em torno da discriminação e da exclusão que sofrem o homem e a mulher de cor negra em nossa sociedade. As diversas atividades culturais que promovem são dignas de elogios; são importantes os ciclos de palestras, as mostras fotográficas de artistas negros, a exibição de filmes, o ritual dos lançamentos de livros, os shows de reggae, as rodas de capoeira nos parques etc.
Só os bobos mesmo acreditam que o racismo é uma coisa do passado. Foi abolida a escravidão, mas se deixou os negros no ostracismo e hoje eles amargam uma condição subalterna. Não há indivíduos desta etnia praticamente nos núcleos decisórios, nos lugares de poder significativos, nas atividades profissionais mais prestigiadas. Existem sim muitos destes homens nas penitenciárias, no mundo do crime, no contingente de menores abandonados, dentre a grande população de analfabetos, dentre os indigentes. O que explica isto senão o racismo, revelado pelo processo de exclusão?
Quando se evidenciar a presença significativa de homens e mulheres de cor negra nas universidades, quando se notar sua presença no parlamento e nas cadeiras do senado, assim como nas entidades eclesiásticas, nas classes empresariais etc, se poderá pensar de um outro modo.
Vê-se muitos negros, é verdade, nos grandes clubes de futebol do País e também em vários grupos de música popular. Mas isto não significa, de forma alguma, inexistência de discriminação racial. Trata-se de um jogo de sorte e de um talento expressivo que o preconceito não pode desconsiderar. Como ser negro não é uma coisa tão boa, dentre nós, muitos destes artistas e atletas, que alcançam, no final, o enriquecimento, terminam esquecendo de sua negritude.
Somos o País onde vive o maior contingente populacional de negros do mundo, tirando a Nigéria, o que significa que o Brasil é a maior nação negra fora da África. Diante deste dado, pode-se dizer que é uma incongruência não se reservar aos negros a mesma possibilidade do restante da população, não pobre, é claro, definindo-lhes como alvo de preconceito racial. Por outro lado, deveria ser bom ser negro aqui nestas paragens onde há mais seres humanos desta cor do que em qualquer outro lugar do planeta fora do continente africano.
- ARLEI DE ESPÍNDOLA é professor universitário em Toledo

mockup