O que Zygmunt Bauman tem a ver com sua consulta médica?
Recentemente, a humanidade perdeu um dos grandes pensadores do século passado e início deste. Trata-se de Zygmunt Bauman, brilhante sociólogo e escritor de origem polonesa, que bem traduziu a instabilidade do mundo pós-moderno. Segundo Bauman, as relações, tanto interpessoais, como do indivíduo com a sociedade, se tornaram líquidas, ou seja, escorrem pelos vãos dos dedos sem que possamos agarrá-las. Diante disso, a provisoriedade de nossos referenciais atualmente nos torna carentes de verdades sólidas em que possamos nos ancorar.
Nada mais claro nos dias presentes. Vivemos relações superciais, muitas das
vezes de forma virtual em chats e redes sociais, que podem ser facilmente trocadas na menor suspeita de frustração. Afinal, frustração é uma palavra inerente às transações humanas, mas àquelas sólidas, construídas no embate do dia a dia. Vivemos também de informações igualmente superciais e transitórias, verdades tão voláteis que talvez eu me atreveria a dizer que são gasosas e não líquidas. Como já foi dito, a novidade dos jornais de hoje serve para embrulhar peixe amanhã. E para muito pouco além disso.
A nossa necessidade de distração do eu tornou-se tão voraz que precisamos nos
alimentar incontrolavelmente de novidades dos "amigos", fotos, curtidas, selfies em lugares cada vez mais exclusivos. E distraído com a modernidade líquida vive o ser humano, ainda sem um referencial claro de como as novas ferramentas tecnológicas do início deste século podem realmente instrumentalizá-lo na busca pelo alívio da angústia existencial. Angústia essa tão sólida e resistente quanto em qualquer outro período de nossa história sobre a terra.
E de que forma sua consulta ao médico pode estar entrelaçada com esse
contexto? Atendo todos os dias a um número sem fim de pessoas correndo nas mais
variadas direções, todas bastante cientes do que querem alcançar. Uma casa nova, com mobília exclusiva para mostrar aos vizinhos e amigos, uma viagem para o exterior para tirar fotos lindas para redes sociais, escola cheia de aparatos adicionais para os olhos, carro novo, e aí tudo de novo, num sem fim de necessidades materiais.
E, se sabemos bem o que queremos, quando o assunto é por que queremos, aí que começamos a nos deparar com uma realidade assustadora. Por que queremos tanto, insaciavelmente? Identifico, como médico, que essa busca frenética, alucinada, não nos tem feito mais felizes e capacitados a saborear a vida. Cada vez mais, quem está sentado do outro lado da nossa mesa do consultório nos conta o quanto está angustiado, estressado, infeliz. E relata uma infinidade de sintomas físicos, como dor no peito, falta de ar, palpitações, desconforto abdominal, dores crônicas, cansaço, insônia, decorrentes da falta de sabedoria no viver. Cada vez mais vejo pessoas que, para obter algum alívio nesta busca desenfreada, ancoram-se no álcool, na alimentação excessiva e compulsiva, ou até mesmo no uso de drogas ilícitas. Lembro também do outro tanto de pessoas que precisam de medicação para alívio dessa inquietação emocional que nosso mundo líquido
nos trouxe.
Quais as soluções para esse dilema existencial atual? Não me atrevo a conjecturá-las, até por medo que minhas ideias escorram pelos dedos da mão, tão ao modo atual. Lanço, porém, uma proposta de reflexão para o amigo leitor. Diante da provisoriedade da existência humana, o que realmente vale a pena? Precisamos realmente de trabalhar incansavelmente por tantas horas, escravizar nossa mente a ponto de não sermos capazes de ter momentos de descontração e relaxamento sem a ajuda do álcool ou de alimentos pouco saudáveis? Creio que, para uma vida plena e prazerosa, para encontrarmos os trilhos da felicidade, torna-se imperativo tomarmos posse da única coisa que realmente nos pertence, o presente. O presente das relações reais e palpáveis, da necessidade de afeto e convivência, das frustrações trabalhadas e superadas. Nada mais concreto e palpável.
OTÁVIO MANGILLI é médico cardiologista em Maringá
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