O que você sabe sobre transgênicos?
O que você sabe sobre transgênicos?
Ciliane Carla Sella de Almeida
Quando lemos sobre transgênicos não nos importamos muito com o tema por acharmos que é algo muito distante de nossa realidade ou que já é a nossa realidade e nada podemos contra ou ainda por não dispormos de tempo suficiente ou mesmo curiosidade para questionarmos ou aprofundarmos nossos conhecimentos formando opinião sobre vantagens e desvantagens dos alimentos geneticamente modificados. E assim levamos a vida, preocupados mais com a sobrevivência, contas a pagar, desemprego, violência, falta de educação, de saúde etc.
No entanto, é nosso dever buscar, ao menos, informações a respeito do que acontece em nossa sociedade, em nosso mundo (a globalização exige vigilância também) para mais tarde, pela evolução e rapidez dos acontecimentos, não nos arrependermos de nossa postura alienada.
Dentro da questão transgênicos, vemos outros desdobramentos como: os novos rumos da humanidade através da evolução da engenharia genética, da biotecnologia, da segurança dos alimentos, do desenvolvimento sustentável, a eficiência ou ineficiência dos órgãos internacionais como OMS (Organização Mundial da Saúde) e ONU (Organização das Nações Unidas) na fiscalização destas novas tecnologias que ameaçam mudar o cenário mundial através de técnicas por nós desconhecidas, o posicionamento do direito, da ética, da religião, da agronomia, dos agricultores, das cooperativas etc.
Somos hoje cidadãos do mundo, podemos mudar o destino da terra com nossas intervenções, podemos salvar vidas, florestas, animais, enfim tudo o que estiver neste planeta. Basta conhecimento dos fatos, basta participação, basta atuação, comprometimento exigidos também para o exercício da própria cidadania. Não mais podemos culpar o outro por aquilo que nos acontece quando conscientes do que pode nos acontecer.
Podemos até saber o que são transgênicos e já estarmos conformados com a idéia de que comeremos, mais cedo ou mais tarde, alimentos geneticamente modificados baseados nos argumentos (quase que indestrutíveis) que é a grande solução para a fome no mundo e que está provado que não causam nenhum dano à saúde humana.
Mas será que isto tudo basta para pôr ponto final em uma questão de suma importância, que diz respeito ao nosso futuro, envolvendo um número indeterminado de consequências em nossas vidas? Não podemos alegar desinformação, falta de acesso aos meios de comunicação. Todos os dados estão aí. Resta pensar, avaliar, ponderar.
Também não podemos mais pensar só em nosso presente. É preciso decidir o hoje com projeções no amanhã. Afinal, a medicina confirma que podemos viver 120 anos. Então cabe a nós e a todos os segmentos de nossa sociedade, debater como viveremos ou conviveremos com os avanços trazidos pelas pesquisas da engenharia genética, da biotecnologia.
Analisar todos os aspectos, ver como outros povos estão se manifestando sobre o mesmo assunto; a posição do governo na interdição ou liberação do plantio e da comercialização da soja transgênica em nosso país; de como o consumidor será informado sobre a composição dos alimentos que está consumindo (rotulagem), sua origem (controlada), quais os danos (se há) para o meio ambiente.
Nosso objetivo enquanto centro de direitos humanos é promover o indivíduo, garantindo-lhe os direitos originários da Declaração Universal dos Direitos Humanos e das garantias constitucionais de nosso país e, no caso presente, passar-lhe o maior número de informações possível para que ele, com sua consciência possa opinar, decidir e escolher se quer consumir e dar aos seus familiares alimentos transgênicos ou não. Este é um direito que assiste a todos: o de ser informado e de poder escolher.
Os transgênicos já estão, clandestinamente, em nossas lavouras. Logo, estão em nossas mesas, sem nenhum controle, sem nenhum estudo de impacto ambiental como prevê a resolução 001/86 do Conselho Nacional do Meio Ambiente. Há uma pressão enorme para que o Brasil autorize o plantio e a comercialização destes produtos. Segundo opiniões de cientistas estrangeiros, o Brasil liberará o mercado de transgênicos. Ao menos, a Bahia já contribui para o avanço dos transgênicos ao propiciar a instalação de uma fábrica que produzirá glifosato.
Esperar que o Poder Público interfira em estratégias financeiras de multinacionais e proíba os transgênicos (por falta de dados científicos convincentes) ou que mais tarde venha a nos proteger, é acalentar uma ilusão. A história nos mostra que as autoridades asseguraram o uso da talidomida e no entanto... E assim também foi o caso da vaca louca, da dioxina, do leite com antibióticos, ocorridos em outros países.
O avanço da engenharia genética e suas intervenções na natureza engendram vantagens e riscos. Resta saber se os riscos não ultrapassam e muito as vantagens teóricas. Para esta resposta, necessitamos de ainda 50 anos de pesquisa.
- CILIANE CARLA SELLA DE ALMEIDA é advogada e mediadora, integrante da Droit & Société e da Comissão de Mundialização/Solidariedade Internacional do Centro de Direitos Humanos de Londrina





