O que temos vivido nunca foi democracia - Newton de Góes / Orsini de Castro
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de outubro de 1998
Newton de Góes Orsini de Castro 
Para nos autodeterminarmos e alcançarmos um melhor destino devemos não aceitar exigências inoportunas de organismos internacionais e livrar-nos de condicionamentos impróprios impostos por nações desenvolvidas. O que temos praticado nunca foi democracia. Trata-se de um sistema que em todos os seus aspectos objetiva a manutenção de privilégios para as elites dirigentes, e nada mais.
Há liberdade de expressão, mas nunca de ação que venha aestabelecer justiça social, igualdade de oportunidades e justa distribuição de renda. Se não há pão dê ao povo brioche, dizia Maria Antonieta com a mesma desenvoltura e inconsciência que hoje identificamos no Brasil. Há um sistema de desinformação muito bem estruturado. A excepcionalidade da alienação de grande parte do povo brasileiro é digna de uma séria análise sociológica. Parece-me traduzir incapacidade de elevar-se à consciência.
O governo já demonstrou que manterá o mesmo sistema sócio-político-econômico. Em síntese: juros altos, câmbio sobrevalorizado, aumento da dívida pública e queda da produção, objetivando somente garantir remuneração absurda do capital internacionalizado.
Consequentemente, a Nação irá da estagnação à recessão. O País será mantido na desordem: desemprego, corrupção, falta de segurança, de educação, de profissionalização, de atendimento médico-hospitalar, de transporte e de vias de comunicação decentes.
Em consequência disso, estará assegurada a manutenção de relações humanas conflituosas. A elite privilegiada permanecerá incólume, mantendo-se prestigiada no exterior. A infância continuará desassistida.
Organizações internacionais e governos de países desenvolvidos estão agindo no sentido de que a economia brasileira doente não chegue ao colapso. Simplesmente para que esta nação-Marambaia, onde durante a escravatura os escravos doentes e debilitados eram colocados a fim de não morrerem, para a seguir produzirem riquezas para os escravocratas, continue a enriquecer as elites dominantes internacionalizadas, através da exploração financeiro-econômica. Quando a diferença entre ricos e pobres caracteriza-se pela oposição da opulência à miséria não há democracia e sim despotismo.
Muitos odeiam a verdade. Uns porque não conseguem alcançá-la; outros porque nasceram, cresceram e se fizeram na mentira.
- NEWTON DE GÓES ORSINI DE CASTRO é advogado no Rio de Janeiro


