Interessante o episódio atualmente ‘‘debatido’’ entre o governador do Estado do Paraná, e o senador, eleito também pelo Paraná, Roberto Requião, a respeito dos empréstimos pleiteados para o programa denominado ‘‘Paraná 12 meses’’, e obstaculizados pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE). A mencionada Comissão condicionou a liberação dos empréstimos ao prévio atendimento das informações já solicitadas, acerca das condições do contrato firmado para a instalação da empresa Renault na Região Metropolitana de Curitiba. O pedido de revelação à CAE, dos termos daquele contrato, teria sido elaborado pelo senador Requião.
Segundo avaliação dos senadores integrantes da CAE, que acataram o pedido elaborado ao governo, a informação é necessária para que se possa analisar, criteriosamente, a capacidade de endividamento do Estado e, consequentemente, o impacto na liquidez que o Paraná poderá, ou não, sofrer nos próximos anos. Os dados fornecidos para o Banco Central do Brasil (segundo consta, relativos ao ano de 1995), não contêm tais informações, o que pode representar uma imprecisão na análise feita por aquele ente federal, que sugere aos senadores a aprovação dos empréstimos que montam cerca de quinhentos milhões de reais.
O governador Jaime Lerner, por sua vez, vem negando, terminantemente, a prestação das informações requeridas pelo Senado da República, ao mesmo tempo em que vem acusando o senador Roberto Requião de estar operando contra os interesses do Paraná. A justificativa do sr. Jaime Lerner, reproduzida pela Folha (24-05-97. 1º caderno, pág. 05), é de que ‘‘muitas outras empresas estão em negociação para se instalarem em nosso Estado’’, e que, portanto, a exigência por parte do senador Requião, de que o teor do contrato com a Renault seja revelado para aquela comissão do Senado, seria atitude de ‘‘inimigo do Paranᒒ.
Enquanto as duas expressivas personalidades paranaenses vão ‘‘debatendo’’ a questão através da ‘‘troca de farpas’’ pela imprensa, é natural que haja perfilamento, para ambos os lados, de pessoas que consideram que um ou outro esteja com a razão.
Necessário, no entanto, como em qualquer julgamento, mesmo que externado por um cidadão comum, ater-se numa análise mínima quanto aos argumentos pelos quais cada parte defende seu ponto de vista. Compreensível a argumentação do governador, ao pretender ocultar de ‘‘outras empresas’’ as vantagens que possa ter cedido à Renault, na tentativa, talvez, de impedir que queiram as mesmas condições para que venham instalar-se no Paraná. A intenção da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, bem como do próprio Senador Requião, no entanto, parece estar mais adequada com o cuidado que se deve ter no trato da coisa pública.
Todo e qualquer ato do governo, especialmente num Estado democrático, deve ser observado sob uma de suas principais características: a de publicidade. As atitudes tomadas por um governo, mormente aquelas que visem trazer benefícios diretos ou indiretos para todo o Estado e a população, não podem ser tratados como um ‘‘segredo inconfessável’’. Se nada de errado foi feito, não há razão para receio de mostrar como o Paraná chegou ao sucesso na disputa pela grande empresa francesa. Aliás, por tratar-se de ato de governo, tal informação deveria estar ao alcance de qualquer cidadão que a requeira. O cidadão que paga seus impostos, e que, portanto, contribui para que o Estado possa honrar seus compromissos assumidos, tem o direito de obter as informações que, no seu entendimento, lhe digam respeito.
É necessária muita responsabilidade para agir em nome de toda uma população, especialmente se pode haver comprometimento da capacidade de adimplemento do Estado e, ainda, da consecução de outros programas de governo que, no futuro, precisam ser instalados. Agir com tal preocupação, salvo melhor juízo, não parece conduta de ‘‘inimigo do Paranᒒ.
A disputa entre os estados, por grandes empresas que procuram melhores alternativas para sua instalação, a bem da verdade, é semelhante a um leilão. Por outro lado, os empresários são conscientes da proporção de suas dimensões e, sem dúvida, da diferenciação de vantagens que serão oferecidas, sempre de acordo com a contrapartida que devem assumir perante o Estado.
Por isso, não parece razoável omitir ao Senado a informação pretendida para a análise da possibilidade de liberação dos empréstimos, lançando dúvida sobre a lisura da Comissão de Assuntos Econômicos, apenas porque se crê que outras empresas se sentirão, talvez, menos privilegiadas em suas negociações com o Estado.
Entre o senador Roberto Requião e o governador Jaime Lerner, no que se refere à conduta adotada, a que causa mais estranheza é, sem dúvida, a do governador, pois não se coaduna com os princípios de transparência e honestidade pelos quais deve pautar-se um homem que recebe tão expressiva outorga popular. Torna-se inevitável questionar: - afinal, o que pode haver de tão secreto neste contrato? Por que, ao invés de fomentar tanta polêmica junto à imprensa, o governo não fornece, de imediato, as informações requeridas pelo Senado, para que sejam agilizadas as providências relativas aos esperados empréstimos? Se a negociação com a Renault, segundo o sr. governador, só traz vantagens ao Paraná, então não há razão para a perda de tempo. É a inquestionável sabedoria popular que ensina: quem não deve, não teme.

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