Quando indico às mães que comprem sandálias adequadas às crianças, principalmente às meninas, percebo que é quase uma tarefa impossível de ser realizada, já que o que é ofertado no mercado dificilmente se encaixa nos padrões adequados do desenvolvimento ósteo-músculo-esquelético do indivíduo. Para tanto é necessário saber um pouco sobre como nossos pés se desenvolvem.
Nossos pés se desenvolvem de forma gradativa. Ao nascer, os pés parecem ser planos, porque existe uma porção gordurosa, que é gradualmente absorvida durante o processo de crescimento, no primeiro ano de vida da criança. A forma do pé só fica totalmente definida quando o crescimento termina (por volta dos 20 anos) e o tamanho é geralmente alcançado por volta dos 14 anos.
Os pés crescem mais rapidamente durante os primeiros dois a três anos de vida e voltam a crescer rapidamente aos sete anos de idade. Depois disso, o crescimento é retardado até a puberdade. Os pés vão se desenvolvendo e se adaptando de acordo com as características genéticas e ambientais, entre outros fatores.
Dentre os fatores ambientais, cabe ressaltar o uso de saltos, especialmente prejudiciais nos calçados infantis. Os efeitos que o salto alto acarreta em nosso corpo ainda são bastante discutidos. Pesquisa realizada pela universidade de Harward constatou que o uso de salto alto gera uma carga 23% maior para os joelhos do que quando se anda descalço. Outra pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo constatou que o uso de salto provoca dores nos pés, calos e joanetes, podendo causar ainda tendinites e alterações na coluna e na postura, além de torções e até fraturas.
Por meio de um equipamento chamado baropodômetro, a ortopedista Cibele Ressio, responsável pela pesquisa realizada em São Paulo, averiguou que o salto agulha é o pior de todos, porque diminui o equilíbrio; os saltos retangulares e quadrados podem ser classificados como de risco intermediário; e as versões anabela e plataforma são as que melhores distribuem a pressão do corpo sobre as plantas dos pés.
Os problemas decorrentes destes calçados podem extrapolar a dor e o desconforto e se transformar em uma deformidade. O uso crônico de sapatos altos, apertados e pouco confortáveis pode levar, com o passar dos anos, a tendinites de repetição, formação de pequenos tumores benignos e desgastes das articulações dos pés, joelho e coluna, que acabam provocando dores crônicas e limitações de movimento.
A recomendação para proteger os pés é alterar o uso de sapatos de salto com mocassins, tênis, sandálias ou sapatos com salto de dois a três centímetros. O ideal seria o uso de tênis e calçados de sola plana ou ainda andar descalço, logo após o uso constante do salto.
O salto ideal deve ter uma altura de no máximo dois centímetros; a base do salto deve ser mais larga que o calcanhar, para permitir uma melhor distribuição da pressão do corpo quando a pessoa anda. O sapato deve ter uma cinta, velcro ou cadarço, na sua parte intermediária, com ajuste regulável, que o mantenha firmemente amarrado ao dorso do pé.
ISABEL CRISTINA VICENTE DE REZENDE é fisioterapeuta em Londrina e pesquisadora do estudo do movimento humano há mais de 15 anos.

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