O amor é o tema por excelência da vida e o único que no fundo interessa. As virtudes só são moralmente necessárias por falta de verdadeiro amor, são como imitações ou faces variadas dele, pois se ele se manifestasse na sua plenitude não precisaríamos de leis, regras ou princípios norteadores de condutas. A natureza humana é sempre incompleta, imperfeita e carente, só o amor é capaz de recompô-la ao se esforçar por fundir dois seres num só e, assim, permitir a completude.

Amor é uma palavra ampla demais para ser só uma, precisamos de variações para poder abarcar toda a sua vastidão de significados e especificidades. Os gregos antigos sabiam disso e definiam amor sob três perspectivas distintas, a carência (eros), o regozijo (philia) a solidariedade (ágape).
O amor Eros simboliza o amor físico, carnal, sexual, que expressa a carência por aquilo que se ama e por isso deseja-se possuí-lo. Apresenta-se por meio do seu lado possessivo, egoísta, ciumento e profundamente carente.

Já o amor Philia representa a amizade perfeita, própria dos homens virtuosos que desejam o bem a seus amigos por amor a eles. Como dizia Pavese:"Você será amado no dia em que puder mostrar suas fraquezas sem que o outro se sirva delas para afirmar sua força". É o amor-ação que se opõe a Eros (o amor paixão). É adotar o outro como irmão por opção, transcendendo a genética e os laços biológicos. Montagne já dizia: "Amigos de verdade não podem se emprestar nem se dar nada, pois tudo é comum entre eles". Mas Eros e Philia muitas vezes andam juntos, são faces da complexidade amorosa que é plural, com fronteiras permeáveis e tênues que conduzem a manifestações multifacetadas e impossíveis de apreender num estado puro, porque sempre carregam traços de hibridez e imperfeição.

Por sua vez, o amor Ágape é para os gregos o amor supremo. Ágape é o verdadeiro amor, diferente de Philia que, embora se entregue ao amigo, não deixa de ser uma forma de posse, pois exige reciprocidade, retorno e desfrute. Ágape, em seu lugar, é o amor que se dá ao estranho, ao desconhecido, até ao inimigo. Ágape é o amor tornado permanente e crônico, estendido à universalidade dos homens, à totalidade do que vive. É um amor sem justificativa, incondicional, sem interesse, sem motivo a não ser por ele mesmo. O amor Ágape é como a rosa que exala perfume independentemente para quem, até mesmo quem lhe tira a vida é agraciado com o mesmo perfume, porque é da sua natureza espalhar tão agradável fragrância. Tudo isso parece pura loucura para quem não o consegue experimentar.

Um exemplo real dessa "loucura" foi documentado anos atrás, quando um membro da pastoral carcerária fazia uma visita de rotina a um presídio e foi impactado pela imagem de uma senhora que, docemente, afagava o rosto de um dos presidiários e diante da cena exclamou para os outros detentos: "Estão vendo o carinho daquela mãe pelo seu filho, ela é exemplo vivo do amor incondicional que todos devemos guardar uns pelos outros". Foi quando um dos presos surpreendeu a todos com o seguinte comentário: "Vocês não sabem de nada, aquela senhora teve seu filho assassinado pelo preso que hoje ela cuida como um filho". Eis aí o amor que desconcerta!

O amor Ágape é aquele que sobrepuja e serve de alicerce para todas as demais virtudes que nada mais são do que expressões desse amor maior, incondicional e sem limites. Como explicava Spinoza: "O amor é a finalidade, a generosidade o caminho". A generosidade nos eleva em direção aos outros e em direção a nós mesmos enquanto libertos de nosso pequeno eu. Como seria horrível se eu fosse alguma coisa, pois o amor exagerado a si mesmo é a fonte de todo o mal. Amar é encontrar sua riqueza fora de si. Como disse Simone Weil: "Amar um estranho como a si mesmo, implica em amar a si mesmo como a um estranho".

LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é professor de Ética e Responsabilidade Social na UEL

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