JJ, fotógrafo aqui da Folha, era avesso a roupas avançadas, destas que os jovens de sua idade usavam. (Esta história já tem uns dez anos). Insistia em ser conservador, movido pela vontade de agredir os circunstantes com essa sua maneira de ser. Queria mostrar que era simples, que não era burguês. (Eram tempos em que se usava essa palavra para definir, no dizer dos vanguardistas, o que havia de mais abominável).
Suas camisas eram baratas, as calças ajustadas ao corpo, destas estilo pula-brejo. As calças quebravam um pouco sua linhagem de vanguarda, eis que poderiam muito bem ser largonas e sem cinto, atadas com um cordão. Estavam sempre meio manchadas de ácidos de revelador, afinal JJ era um operário, sempre meio engajado nas lutas pela cidadania. Comparecia a todos os movimentos, senão por vontade convicta, ao menos para fotografar. Às vezes empolgava-se, e ao voltar à Redação percebia que não havia fotografado nada, pois ficara batendo palmas.
Nem se barbeava direito, abominava o desodorante – para conservar o cheiro de povo – as roupas não combinavam, o cinto não tinha nada a ver com o sapato, nem as meias. Ficava agressivo quando lhe falavam do ton-sur-ton. (Naquele tempo era assim que se dizia, e era chique). Por força da profissão, ia a desfiles de moda fotografar para a coluna social e para a Folha da Sexta, e sabia o que era fino e elegante. Inteligente ele era. E bom fotógrafo. Talvez por isso se perdoava aquela sua arrogância e a revolta contra as coisas belas e perfumadas.
Sabia que não precisava ser rico para vestir-se um pouco melhor, e bom salário ele tinha. Falavam-lhe de perfumes masculinos, ele respondia machão. Tinha cheiro de ato público, de passeata de protesto, de povo-unido-jamais-será-vencido. Só faltava aderir à bolsa de pano, ao chinelo de tira e ao cabelo encaracolado qual estudante de comunicação.
...Até que um dia, depois de breves férias, o homem apareceu mudado. Havia viajado não se sabe para onde, já separado de uma união que não havia dado certo.
(Esta história não teria graça se não fosse verdadeira.)
Fiquei observando-o, os coleguinhas também, mas pensavam haver dormido mal e que as vistas estavam turvas, porque aquele já não parecia mais o JJ. Vestia calças não tão caras mas sanfonadas (era o que havia!), com vira italiana, camisa solta de ombros largos, sapato combinando com o cinto – até combinando exageradamente – meias idem. Bem barbeado, limpo, uma certa fragrância no ar que não passava despercebida. E desodorante. Sentia-se.
Humm, o que está acontecendo? – murmuravam-lhe as mulheres aqui na Redação, já então notando aquele new look. Ele sorria, feliz. Sempre teve um sorriso bonito, mas o usava pouco. Agora já era reverente. Foi até visto entrando numa floricultura.
Passados mais uns dias, não resisti:
- Ô cara, conta aqui, você está apaixonado... Tem mulher nova por aí...
Ele sorria, com ar de concordância.
- Por quê? - retrucou, assim como quem não precisa de resposta.
- Dá pra notar - respondi-lhe, fitando-o de alto a baixo e balançando a cabeça em aprovação.
- É, estou concluindo minha separação...
- E tem gente nova... – emendei.
- É, tem – respondeu, meio tímido, como se houvesse cometido algum delito, decisão que certamente lhe exigira uma forte carga de coragem, eis que casar é fácil mas descasar é difícil. Descasados recentes sentem-se como que culpados e ficam apresentando justificativas, mesmo que não solicitadas.
Dias depois vi JJ entrando no cinema, ainda mais elegante que nas vezes anteriores e... uma mulher a tiracolo. Não pude vencer a curiosidade e avancei o passo, naturalmente para saber quem era.
Ao vê-la, discretamente – ele nem me viu, naquela multidão – aí entendi a razão do deslumbramento de JJ.
Ele, até então, não havia conhecido a paixão...
Um homem apaixonado – e se tem a felicidade de ser correspondido – é capaz de coisas surpreendentes. Vê céu azul em tarde nublada, rosas em campos de amora, o mundo transforma-se no paraíso. Fica meio bobo o homem.
O amor é assim mesmo. Meio criança. Não tem coisa melhor!
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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